O Elson Barbosa, dono da comunidade da revista Bizz no Orkut, bolou um negócio muito interessante comigo: uma entrevista, via MSN, que seria postada na Comunidade. Achei ótimo esse formato, pá-pum, que começou em volta do livro do Simonal, foi (claro) para a Bizz e terminou falando de imprensa musical e cultural como um todo. O papo é o que segue, do jeito que foi digitado:
elson diz:
entao mandando a primeira
queria primeiro esclarecer uma questao cronologica. no prefacio voce diz que o livro eh fruto de dez anos de pesquisa, mas em algumas materias diz que o interesse na historia do simonal surgiu naquele trabalho que voce fez na caixa da odeon de 2003. voce ja pensava no livro ha dez anos?
Ricardo diz:
não, não. a pesquisa tem dez anos, mas a ideia do livro surgiu no inicio de 2008, logo depois que eu vi um copião do "ninguém sabe o duro que dei". há dez anos eu entrei em contato profissionalmente com o simonal, entrevistei ele e tudo. a partir de então, a pesquisa e a reportagem não pararam. em 2003, eu tive a oportunidade de adensar esse trabalho e publica-lo pela primeira vez, na caixa da odeon. esse booklet tinha uns 100 mil caracteres e serviu de fonte para o filme, segundo os diretores disseram. daí, quando assisti ao documentário, vim para a direção da globo certo de que se eu não concluísse meu trabalho, alguém concluiria. e aí é isso.
elson diz:
ah voce chegou a entrevistar o simonal? nao lembro se isso era citado no livro. tem isso na web em algum lugar?
acabei de achar, voce cita no final do livro
Ricardo diz:
tem no livro. eu digo algo do tipo "a rigor, a primeira entrevista usada no livro foi com o próprio simonal, em 1999".
elson diz:
tinha me passado despercebido
e tem essa entrevista em algum lugar?
Ricardo diz:
não sei. eu transcrevi as partes que me interessavam na época, que eram relativas à discografia dele. era algo tipo discografia comentada. transcrevi os pedaços úteis e não preservei a fita. lembro que ficamos falando um tempão sobre a banda veneno, e isso também me ajudou no livro. ele dizia algo do tipo "essas bandas de rock dizem que são bandas, mas isso não é banda nada! banda é a banda do corpo de bombeiros!". ele foi bem engraçado.
elson diz:
legal isso. a imagem que me passou dele nessa epoca era de alguem bem amargurado
Ricardo diz:
então,
elson diz:
aquele lance dele no hospital, falando que era inocente
Ricardo diz:
muitas das entrevistas que eu fiz me ajudaram a detectar o "tom" das coisas. eu percebi, por exemplo, que o simonal gostava quando tinha contatos profissionais porque isso o ajudava a desempenhar o simona de novo.
todo mundo notava isso, como ele era divertido "oficialmente".
mas só pessoas muito íntimas relatavam o quanto ele era, ao mesmo tempo, amargurado e triste.
elson diz:
ele chegou a falar da historia toda na sua entrevista? mostrar o documento que o inocentava etc
Ricardo diz:
não. pra falar a verdade, eu não sabia o quão importante era aquilo tudo. achava que era só um desvio lá na biografia dele. nem perguntei.
elson diz:
que eh outra imagem que eu tive tambem - que ele passou a frequentar programas e entrevistas so pra mostrar o tal documento e tentar limpar sua imagem. eh legal ver que mesmo em 99 ele ainda tinha esse outro lado, mais "simona"
Ricardo diz:
é que eu não dei linha para esse assunto. era evidente que isso tirava o simonal do sério, até porque ele não conseguia se explicar.
elson diz:
saquei
falando em inocencia, a ilustrada disse que voce inocentou o simonal. eu achei o livro bem imparcial, inclusive detalhando bem o "grande erro" a ponto de quase jogar o leitor *contra* o cantor...
Ricardo diz:
ah é, eu já li gente chamando o livro de "cruel", outro chamando de "humano", outro dizendo que eu inocentei o simonal e um radialista que disse que agora não tem dúvidas de que o simonal era colaborador do dops mesmo!
elson diz:
hahaha
Ricardo diz:
eu costumo dizer que, dependendo de como o leitor entra no livro, ele sai com uma reação diferente. aqueles fãs ardorosos do simonal que divulgavam que o simonal foi uma grande vítima do mundo, vão odiar o livro, porque vão achar que eu o incriminei.
os que achavam que ele era mesmo um dedo-duro vão achar que eu o absolvi.
porque a realidade é mais complexa do que essas reduções. e porque a história é rocambolesca mesmo. e porque, na minha opinião, a contextualização e a composição psicológica do simonal é infinitamente mais importante do que a história do contador. foi uma sensação incrível quando, depois de uma tonelada de entrevistas e documentos, pela primeira vez eu entendi a história toda.
elson diz:
e qual eh afinal a historia? a que eu conclui com o livro eh que ele foi ingenuo - assinou um documento dizendo que "prestava servicos", mas era ingenuo demais pra isso
a impressao que me deu eh que esse paragrafo final do documento, o "prestava servicos", era so um filler desses que nao querem dizer nada, e que sem querer mudou toda a historia
Ricardo diz:
ah, não vou dar a minha leitura, porque isso vai influenciar o leitor. o importante é que todos os elementos estão lá, pela primeira vez. insumo suficiente para que o leitor tire suas conclusões, como você fez. eu não acho que ele tenha sido ingênuo, talvez não seja esse o termo correto. no fundo, o que me surpreende na história toda é que a história do simonal é a história das impossibilidades do brasil. um jornalistão casca-grossa, de formação em jornalismo de economia e política, veio me dizer que o livro provocou nele uma tristeza enorme por ser brasileiro, por ter a elite cultural que a gente tem. a minha opinião vai mais por aí.
a minha leitura, digo.
elson diz:
o que comprova a imparcialidade do livro afinal. cada um acaba tendo a sua conclusao
Ricardo diz:
eu acho, pelo menos.
elson diz:
como foi trabalhar com a familia do simonal? mesmo com diversas passagens delicadas, achei quase simbolico ver o max e o simoninha ao teu lado assinando o livro junto
Ricardo diz:
puxa, todo mundo me pergunta se eu gostaria de fazer outra biografia e eu respondo "só se os herdeiros forem o max e o simoninha!"
elson diz:
hahaha
Ricardo diz:
porque esse livro não teria a menor chance de sair sem a postura deles. e provavelmente eu não iria querer avançar em um livro que não contasse tudo o que foi apurado. eles só leram o livro pronto, diagramado, na página e não fizeram nenhum tipo de reclamação. muito embora eles tenham manifestado vários pontos de desacordo comigo (de leitura, de tom, não de informação, claro).
acho que a diferença é que eles são educados, são apreciadores da palavra escrita, conheciam e admiravam meu trabalho há um tempão e não só me deram liberdade total para trabalhar como abriram várias portas, endossando meu trabalho para alguns parentes e amigos que, de outra forma, não falariam. e também porque eles têm vidas próprias, nunca viveram dependendo da (má) fama que o pai tinha e sabiam que, quanto menos eles se envolvessem, mais ficaria claro que eles não tinham nada a esconder.
elson diz:
muito bom. eu tava vendo que a biografia do raul seixas ja tem ameaca de processo antes mesmo do autor terminar de escrever - "se voce publicar eu te processo"...
Ricardo diz:
essa história é fantástica. como alugém pode reclamar de um livro que ainda não foi publicado? esse país é realmente surreal. a moça dj (vivi? é esse o nome dela?) foi para o jornal reclamar que está "cansada de, desde criança, chamarem o pai dela de bêbado, de drogado..."
pensei: "só falta agora dizerem que ele era baiano!"
elson diz:
hahahaha
eh a kika seixas, a auto-proclamada "viuva"
Ricardo diz:
então, mas se você ler as "notas" que elas divulgam, em dois parágrafos você já entende tudo: são pessoas de parca alfabetização, um desnível de inteligência de dar pena. a "viúva" reclamou que o edmundo leite só falou de drogas com ela. ainda que isso seja verdade, revela o raciocínio difícil: ela preferia que ele escrevesse sobre isso SEM falar com ela?? ou que ele omitisse esse fato do livro?
bando de malucos não-beleza.
elson diz:
hahaha
eh estranho mesmo. e o que vai complicar quando esse livro sair eh que ela nem eh viuva oficial, o raul ainda teve mais uma ou outra mulher depois dela
nem eram casados, acho
Ricardo diz:
bem, na boa? o raul merece esse rolo todo. ele cavou isso a vida inteira, né? o triste é notar que a hora que aparece um jornalista com a liberalidade de tratar o cara com o respeito que o próprio artista não se deu, vem a família com uma violência, uma agressividade...
enquanto os herdeiros acharem que são, necessariamente, as melhores pessoas para cuidar dos espólios artísticos, vamos continuar nessa lama.
elson diz:
mas o do tim maia nao deu esse rolo, deu? sei que existe aquela confusao enorme com o espolio (e lembro de ter lido no teu blog um post sensacional falando "enquanto eles tao brigando e proibindo, ta todo mundo baixando e ouvindo os ineditos do racional"). nao li a do tim maia, mas nao lembro de ter tido algum rolo parecido
Ricardo diz:
o nelson motta fez um acordo anterior com os herdeiros. bem, tanto deu rolo que o "noites tropicais" deveria ter sido a biografia do tim maia, né? o nelson desistiu no meio do caminho e fez o "noites tropicais".
elson diz:
mas nao chegou a rolar processo ou ameaca de recolher o livro, rolou? ou o livro eh light e so mostra o tim maia bonachao
Ricardo diz:
não sei, elson, realmente não sei. quando o livro saiu eu já tinha abandonado o mundo da música!
elson diz:
abandonado nada po, e a bizz? haha
Ricardo diz:
o livro do tim maia saiu depois do fim da bizz, não saiu?
saiu sim, me lembro que eu tentei lançar um best of quando eu fazia consultoria para a som livre, e isso foi depois da bizz, e antes de o livro sair.
de qualquer forma, evidentemente, não abandonei a música, só o jornalismo musical.
elson diz:
entendo entendo. eu tambem confesso que acompanhei pouco essa biografia (talvez ate pela falta de polemica). a curiosidade em ler ta surgindo mais agora
e falando em jornalismo musical - o que da mais orgulho ver publicado, livro ou revista?
Ricardo diz:
é muito diferente, porque revista é um produto muito colaborativo. tem opinião e ideia de todo mundo ali. livro é algo mais pessoal. revista atinge mais gente. quer dizer, não a bizz, que vendia menos do que o meu livro já vendeu.
elson diz:
tao falando (de novo) numa volta da bizz, ouviu algo sobre isso ja?
Ricardo diz:
ouvi. acho que o terron comentou comigo. ele disse que iriam rolar uns especiais com a marca, né?
elson diz:
isso
soltaram a do michael jackson e agora a do elvis, e parece que vao lancar mais alguns especiais pra testar a marca
e segundo o terron, a ideia eh focar em rock classico
Ricardo diz:
ah, já lançaram? tá vendo como eu estou por fora?
elson diz:
a do elvis? saiu semana passada, acho. comprei e nao li ainda
Ricardo diz:
não sei o que pode estar se passando na cabeça do povo da abril, mas, enfim, desejo sorte, até porque tenho colegas queridos no mercado do jornalismo cultural e campo de trabalho nunca é demais.
elson diz:
eh, vai saber. curioso eh que michael jackson e elvis sairam com a marca bizz, e os beatles com a marca bravo. acho que nem eles sabem bem o que fazer ainda
Ricardo diz:
teve um especial da bravo com os beatles? foi legal?
digo, era bom?
elson diz:
teve, em setembro, na epoca dos relancamentos. eu achei excelente. deram uma geral nao so na historia (ja batida) da banda, mas nos relancamentos e em cada um dos discos
material de colecionador ne
Ricardo diz:
legal.
elson diz:
voce costuma ler a rolling stone e agora a billboard?
Ricardo diz:
tenho todas as rolling stone, leio sim, tenho grandes amigos trabalhando lá. a billboard eu li a número um com atenção, não comprei a número dois e achei esse número três o melhor. mas eu estou muito por fora do universo da música, não sei avaliar. leio porque gosto de ler o que meus amigos escrevem.
elson diz:
com o lancamento da billboard e o boato da tal volta da bizz, sera que o mercado esta melhorando afinal? a tendencia eh justamente a contraria...
Ricardo diz:
cara, não acho que tenha público, e a rolling stone já atende o pouco público que existe. agora, é possível que surja uma configuração muito louca que viabilize uma revista. sei lá, uma operação conjunta de eventos, ringtones e revista de papel. ou um projeto incentivado por renuncia fiscal, vai saber. quando a gente deixa de ser jornalista e vira, hmmm, "gestor", nota que há um universo complicado atrás da nossa estação de trabalho que faz toda a diferença, que tem a ver com distribuição, marketing e um monte de outras ocupações chatas. há um "negócio" mesmo, que não tem nada a ver com jornalismo. bem, pra gente não ficar só usando a bizz como exemplo, temos o caso da revista set, esse "case" que, mesmo sendo agora dirigida de novo por uma lenda-viva do jornalismo cultural brasileiro, não consegue funcionar.
quer dizer, é o que eu penso, sei lá.
elson diz:
eh bem estranho esse caso da set. voltaram fazendo alarde, e faz tres meses que nao sai nenhuma edicao
a movie do forastieri ja fecharam a 4a edicao, e nada da set nova sair
Ricardo diz:
pois é. curioso que esse caso esteja acontecendo justo com a set, né?
elson diz:
eh verdade haha
mas enfim. quais os planos agora? tem mais um projeto pra livro em mente?
Ricardo diz:
tenho um monte de planos, não só para livros. mas tem de ser coisas que me entusiasmem de algum modo, porque a revista que eu faço hoje é um transatlântico que me ocupa toda a energia e tempo que eu poderia dispor. o que eu queria mesmo é dar 2010 para minha esposa e meus filhos.
elson diz:
foi complicado escrever a do simonal ne? voce deu uma sumida, o blog ficou sem atualizacao um tempao
Ricardo diz:
foi insano. ninguém sabe o duro que dei.
elson diz:
hahahahaha
Ricardo diz:
quer dizer: o povo aqui da redação e minha família sabem. eu escrevia de madrugada, escrevia na hora do almoço, fazia entrevistas e pesquisas à noite. eu passei de abril a agosto tão pregado que eu, vindo pela bandeirantes, ia parando nos postos de gasolina para dormir. e, por final, o diretor geral aqui da globo me deu uma sala isolada do mundo para concluir o livro, pelo que sou muito grato.
elson diz:
caramba
bom, tamos esperando o proximo! hehe
Ricardo diz:
ah, sim, e tive dois assistentes fabulosos: o leonardo filipo, no rio, e a carolina salvatore, em sp
elson diz:
o savio vilela ajudou ne? vi ele no expediente do livro. gosto dos textos dele
Ricardo diz:
ajudou, sim.
elson diz:
muito bom. po valeu pela entrevista, foi muito legal
vai direto pra comuna da bizz haha
Ricardo diz:
eu é que agradeço. é sempre um prazer falar contigo. mande um abraço para os velhos comunistas!
elson diz:
mando sim! voce que podia voltar a postar la, as discussoes continuam "quentes" como antes haha
Ricardo diz:
eu saí porque algumas pessoas estavam despertando em mim sentimentos que eu não gosto de ter.
mas, se der alguma repercussão o nosso papo, vamos fazer outra rodada.
elson diz:
opa vamos sim
eu te aviso assim que publicar
Ricardo diz:
legal! abração, então.
elson diz:
abs!
EU LI SEU LIVRO E TIVE UMA DÚVIDA,DEPOIS DA QUEDA DO SIMONAL,QUE FIM LEVOU O CARLOS IMPERIAL? ELE ALEM DAQUELA CARTA DA EPOCA DA PRISAO DO SIMONAL NAO SE MANIFESTOU MAIS?
Parabéns pelo seu trabalho!!