29.01.2010 às 14:16 - orkut
Do MSN ao Orkut e de lá pra cá
O Elson Barbosa, dono da comunidade da revista Bizz no Orkut, bolou um negócio muito interessante comigo: uma entrevista, via MSN, que seria postada na Comunidade. Achei ótimo esse formato, pá-pum, que começou em volta do livro do Simonal, foi (claro) para a Bizz e terminou falando de imprensa musical e cultural como um todo. O papo é o que segue, do jeito que foi digitado:
elson diz:
entao mandando a primeira
queria primeiro esclarecer uma questao cronologica. no prefacio voce diz que o livro eh fruto de dez anos de pesquisa, mas em algumas materias diz que o interesse na historia do simonal surgiu naquele trabalho que voce fez na caixa da odeon de 2003. voce ja pensava no livro ha dez anos?

Ricardo diz:
não, não. a pesquisa tem dez anos, mas a ideia do livro surgiu no inicio de 2008, logo depois que eu vi um copião do "ninguém sabe o duro que dei". há dez anos eu entrei em contato profissionalmente com o simonal, entrevistei ele e tudo. a partir de então, a pesquisa e a reportagem não pararam. em 2003, eu tive a oportunidade de adensar esse trabalho e publica-lo pela primeira vez, na caixa da odeon. esse booklet tinha uns 100 mil caracteres e serviu de fonte para o filme, segundo os diretores disseram. daí, quando assisti ao documentário, vim para a direção da globo certo de que se eu não concluísse meu trabalho, alguém concluiria. e aí é isso.

elson diz:
ah voce chegou a entrevistar o simonal? nao lembro se isso era citado no livro. tem isso na web em algum lugar?
acabei de achar, voce cita no final do livro

Ricardo diz:
tem no livro. eu digo algo do tipo "a rigor, a primeira entrevista usada no livro foi com o próprio simonal, em 1999".

elson diz:
tinha me passado despercebido
e tem essa entrevista em algum lugar?

Ricardo diz:
não sei. eu transcrevi as partes que me interessavam na época, que eram relativas à discografia dele. era algo tipo discografia comentada. transcrevi os pedaços úteis e não preservei a fita. lembro que ficamos falando um tempão sobre a banda veneno, e isso também me ajudou no livro. ele dizia algo do tipo "essas bandas de rock dizem que são bandas, mas isso não é banda nada! banda é a banda do corpo de bombeiros!". ele foi bem engraçado.

elson diz:
legal isso. a imagem que me passou dele nessa epoca era de alguem bem amargurado

Ricardo diz:
então,

elson diz:
aquele lance dele no hospital, falando que era inocente

Ricardo diz:
muitas das entrevistas que eu fiz me ajudaram a detectar o "tom" das coisas. eu percebi, por exemplo, que o simonal gostava quando tinha contatos profissionais porque isso o ajudava a desempenhar o simona de novo.
todo mundo notava isso, como ele era divertido "oficialmente".
mas só pessoas muito íntimas relatavam o quanto ele era, ao mesmo tempo, amargurado e triste.

elson diz:
ele chegou a falar da historia toda na sua entrevista? mostrar o documento que o inocentava etc

Ricardo diz:
não. pra falar a verdade, eu não sabia o quão importante era aquilo tudo. achava que era só um desvio lá na biografia dele. nem perguntei.

elson diz:
que eh outra imagem que eu tive tambem - que ele passou a frequentar programas e entrevistas so pra mostrar o tal documento e tentar limpar sua imagem. eh legal ver que mesmo em 99 ele ainda tinha esse outro lado, mais "simona"

Ricardo diz:
é que eu não dei linha para esse assunto. era evidente que isso tirava o simonal do sério, até porque ele não conseguia se explicar.

elson diz:
saquei
falando em inocencia, a ilustrada disse que voce inocentou o simonal. eu achei o livro bem imparcial, inclusive detalhando bem o "grande erro" a ponto de quase jogar o leitor *contra* o cantor...

Ricardo diz:
ah é, eu já li gente chamando o livro de "cruel", outro chamando de "humano", outro dizendo que eu inocentei o simonal e um radialista que disse que agora não tem dúvidas de que o simonal era colaborador do dops mesmo!

elson diz:
hahaha

Ricardo diz:
eu costumo dizer que, dependendo de como o leitor entra no livro, ele sai com uma reação diferente. aqueles fãs ardorosos do simonal que divulgavam que o simonal foi uma grande vítima do mundo, vão odiar o livro, porque vão achar que eu o incriminei.
os que achavam que ele era mesmo um dedo-duro vão achar que eu o absolvi.
porque a realidade é mais complexa do que essas reduções. e porque a história é rocambolesca mesmo. e porque, na minha opinião, a contextualização e a composição psicológica do simonal é infinitamente mais importante do que a história do contador. foi uma sensação incrível quando, depois de uma tonelada de entrevistas e documentos, pela primeira vez eu entendi a história toda.

elson diz:
e qual eh afinal a historia? a que eu conclui com o livro eh que ele foi ingenuo - assinou um documento dizendo que "prestava servicos", mas era ingenuo demais pra isso
a impressao que me deu eh que esse paragrafo final do documento, o "prestava servicos", era so um filler desses que nao querem dizer nada, e que sem querer mudou toda a historia

Ricardo diz:
ah, não vou dar a minha leitura, porque isso vai influenciar o leitor. o importante é que todos os elementos estão lá, pela primeira vez. insumo suficiente para que o leitor tire suas conclusões, como você fez. eu não acho que ele tenha sido ingênuo, talvez não seja esse o termo correto. no fundo, o que me surpreende na história toda é que a história do simonal é a história das impossibilidades do brasil. um jornalistão casca-grossa, de formação em jornalismo de economia e política, veio me dizer que o livro provocou nele uma tristeza enorme por ser brasileiro, por ter a elite cultural que a gente tem. a minha opinião vai mais por aí.
a minha leitura, digo.

elson diz:
o que comprova a imparcialidade do livro afinal. cada um acaba tendo a sua conclusao

Ricardo diz:
eu acho, pelo menos.

elson diz:
como foi trabalhar com a familia do simonal? mesmo com diversas passagens delicadas, achei quase simbolico ver o max e o simoninha ao teu lado assinando o livro junto

Ricardo diz:
puxa, todo mundo me pergunta se eu gostaria de fazer outra biografia e eu respondo "só se os herdeiros forem o max e o simoninha!"

elson diz:
hahaha

Ricardo diz:
porque esse livro não teria a menor chance de sair sem a postura deles. e provavelmente eu não iria querer avançar em um livro que não contasse tudo o que foi apurado. eles só leram o livro pronto, diagramado, na página e não fizeram nenhum tipo de reclamação. muito embora eles tenham manifestado vários pontos de desacordo comigo (de leitura, de tom, não de informação, claro).
acho que a diferença é que eles são educados, são apreciadores da palavra escrita, conheciam e admiravam meu trabalho há um tempão e não só me deram liberdade total para trabalhar como abriram várias portas, endossando meu trabalho para alguns parentes e amigos que, de outra forma, não falariam. e também porque eles têm vidas próprias, nunca viveram dependendo da (má) fama que o pai tinha e sabiam que, quanto menos eles se envolvessem, mais ficaria claro que eles não tinham nada a esconder.

elson diz:
muito bom. eu tava vendo que a biografia do raul seixas ja tem ameaca de processo antes mesmo do autor terminar de escrever - "se voce publicar eu te processo"...

Ricardo diz:
essa história é fantástica. como alugém pode reclamar de um livro que ainda não foi publicado? esse país é realmente surreal. a moça dj (vivi? é esse o nome dela?) foi para o jornal reclamar que está "cansada de, desde criança, chamarem o pai dela de bêbado, de drogado..."
pensei: "só falta agora dizerem que ele era baiano!"

elson diz:
hahahaha
eh a kika seixas, a auto-proclamada "viuva"

Ricardo diz:
então, mas se você ler as "notas" que elas divulgam, em dois parágrafos você já entende tudo: são pessoas de parca alfabetização, um desnível de inteligência de dar pena. a "viúva" reclamou que o edmundo leite só falou de drogas com ela. ainda que isso seja verdade, revela o raciocínio difícil: ela preferia que ele escrevesse sobre isso SEM falar com ela?? ou que ele omitisse esse fato do livro?
bando de malucos não-beleza.

elson diz:
hahaha
eh estranho mesmo. e o que vai complicar quando esse livro sair eh que ela nem eh viuva oficial, o raul ainda teve mais uma ou outra mulher depois dela
nem eram casados, acho

Ricardo diz:
bem, na boa? o raul merece esse rolo todo. ele cavou isso a vida inteira, né? o triste é notar que a hora que aparece um jornalista com a liberalidade de tratar o cara com o respeito que o próprio artista não se deu, vem a família com uma violência, uma agressividade...
enquanto os herdeiros acharem que são, necessariamente, as melhores pessoas para cuidar dos espólios artísticos, vamos continuar nessa lama.

elson diz:
mas o do tim maia nao deu esse rolo, deu? sei que existe aquela confusao enorme com o espolio (e lembro de ter lido no teu blog um post sensacional falando "enquanto eles tao brigando e proibindo, ta todo mundo baixando e ouvindo os ineditos do racional"). nao li a do tim maia, mas nao lembro de ter tido algum rolo parecido

Ricardo diz:
o nelson motta fez um acordo anterior com os herdeiros. bem, tanto deu rolo que o "noites tropicais" deveria ter sido a biografia do tim maia, né? o nelson desistiu no meio do caminho e fez o "noites tropicais".

elson diz:
mas nao chegou a rolar processo ou ameaca de recolher o livro, rolou? ou o livro eh light e so mostra o tim maia bonachao

Ricardo diz:
não sei, elson, realmente não sei. quando o livro saiu eu já tinha abandonado o mundo da música!

elson diz:
abandonado nada po, e a bizz? haha

Ricardo diz:
o livro do tim maia saiu depois do fim da bizz, não saiu?
saiu sim, me lembro que eu tentei lançar um best of quando eu fazia consultoria para a som livre, e isso foi depois da bizz, e antes de o livro sair.
de qualquer forma, evidentemente, não abandonei a música, só o jornalismo musical.

elson diz:
entendo entendo. eu tambem confesso que acompanhei pouco essa biografia (talvez ate pela falta de polemica). a curiosidade em ler ta surgindo mais agora
e falando em jornalismo musical - o que da mais orgulho ver publicado, livro ou revista?

Ricardo diz:
é muito diferente, porque revista é um produto muito colaborativo. tem opinião e ideia de todo mundo ali. livro é algo mais pessoal. revista atinge mais gente. quer dizer, não a bizz, que vendia menos do que o meu livro já vendeu.

elson diz:
tao falando (de novo) numa volta da bizz, ouviu algo sobre isso ja?

Ricardo diz:
ouvi. acho que o terron comentou comigo. ele disse que iriam rolar uns especiais com a marca, né?

elson diz:
isso
soltaram a do michael jackson e agora a do elvis, e parece que vao lancar mais alguns especiais pra testar a marca
e segundo o terron, a ideia eh focar em rock classico

Ricardo diz:
ah, já lançaram? tá vendo como eu estou por fora?

elson diz:
a do elvis? saiu semana passada, acho. comprei e nao li ainda

Ricardo diz:
não sei o que pode estar se passando na cabeça do povo da abril, mas, enfim, desejo sorte, até porque tenho colegas queridos no mercado do jornalismo cultural e campo de trabalho nunca é demais.

elson diz:
eh, vai saber. curioso eh que michael jackson e elvis sairam com a marca bizz, e os beatles com a marca bravo. acho que nem eles sabem bem o que fazer ainda

Ricardo diz:
teve um especial da bravo com os beatles? foi legal?
digo, era bom?

elson diz:
teve, em setembro, na epoca dos relancamentos. eu achei excelente. deram uma geral nao so na historia (ja batida) da banda, mas nos relancamentos e em cada um dos discos
material de colecionador ne

Ricardo diz:
legal.

elson diz:
voce costuma ler a rolling stone e agora a billboard?

Ricardo diz:
tenho todas as rolling stone, leio sim, tenho grandes amigos trabalhando lá. a billboard eu li a número um com atenção, não comprei a número dois e achei esse número três o melhor. mas eu estou muito por fora do universo da música, não sei avaliar. leio porque gosto de ler o que meus amigos escrevem.

elson diz:
com o lancamento da billboard e o boato da tal volta da bizz, sera que o mercado esta melhorando afinal? a tendencia eh justamente a contraria...

Ricardo diz:
cara, não acho que tenha público, e a rolling stone já atende o pouco público que existe. agora, é possível que surja uma configuração muito louca que viabilize uma revista. sei lá, uma operação conjunta de eventos, ringtones e revista de papel. ou um projeto incentivado por renuncia fiscal, vai saber. quando a gente deixa de ser jornalista e vira, hmmm, "gestor", nota que há um universo complicado atrás da nossa estação de trabalho que faz toda a diferença, que tem a ver com distribuição, marketing e um monte de outras ocupações chatas. há um "negócio" mesmo, que não tem nada a ver com jornalismo. bem, pra gente não ficar só usando a bizz como exemplo, temos o caso da revista set, esse "case" que, mesmo sendo agora dirigida de novo por uma lenda-viva do jornalismo cultural brasileiro, não consegue funcionar.
quer dizer, é o que eu penso, sei lá.

elson diz:
eh bem estranho esse caso da set. voltaram fazendo alarde, e faz tres meses que nao sai nenhuma edicao
a movie do forastieri ja fecharam a 4a edicao, e nada da set nova sair

Ricardo diz:
pois é. curioso que esse caso esteja acontecendo justo com a set, né?

elson diz:
eh verdade haha
mas enfim. quais os planos agora? tem mais um projeto pra livro em mente?

Ricardo diz:
tenho um monte de planos, não só para livros. mas tem de ser coisas que me entusiasmem de algum modo, porque a revista que eu faço hoje é um transatlântico que me ocupa toda a energia e tempo que eu poderia dispor. o que eu queria mesmo é dar 2010 para minha esposa e meus filhos.

elson diz:
foi complicado escrever a do simonal ne? voce deu uma sumida, o blog ficou sem atualizacao um tempao

Ricardo diz:
foi insano. ninguém sabe o duro que dei.


elson diz:
hahahahaha

Ricardo diz:
quer dizer: o povo aqui da redação e minha família sabem. eu escrevia de madrugada, escrevia na hora do almoço, fazia entrevistas e pesquisas à noite. eu passei de abril a agosto tão pregado que eu, vindo pela bandeirantes, ia parando nos postos de gasolina para dormir. e, por final, o diretor geral aqui da globo me deu uma sala isolada do mundo para concluir o livro, pelo que sou muito grato.

elson diz:
caramba
bom, tamos esperando o proximo! hehe

Ricardo diz:
ah, sim, e tive dois assistentes fabulosos: o leonardo filipo, no rio, e a carolina salvatore, em sp

elson diz:
o savio vilela ajudou ne? vi ele no expediente do livro. gosto dos textos dele

Ricardo diz:
ajudou, sim.

elson diz:
muito bom. po valeu pela entrevista, foi muito legal
vai direto pra comuna da bizz haha

Ricardo diz:
eu é que agradeço. é sempre um prazer falar contigo. mande um abraço para os velhos comunistas!

elson diz:
mando sim! voce que podia voltar a postar la, as discussoes continuam "quentes" como antes haha

Ricardo diz:
eu saí porque algumas pessoas estavam despertando em mim sentimentos que eu não gosto de ter.
mas, se der alguma repercussão o nosso papo, vamos fazer outra rodada.

elson diz:
opa vamos sim
eu te aviso assim que publicar

Ricardo diz:
legal! abração, então.

elson diz:
abs!

Comentários
03.02.2010 às 15:55 - fred
RICARDO,OBRIGADO PELA RESPOSTA MAS EU GOSTARIA DE SABER SE ELE NAO FEZ MAIS ALGUMA DEFESA MAIS PÚBLICA OU VEEMENTE DO SIMONAL?
02.02.2010 às 19:37 - Ricardo Alexandre
Oi Fred, o Imperial continuou fazendo das suas armações. Escrevendo, apadrinhando artistas, compondo, trabalhando com televisão (procure no Youtube os hilários números musicais do "Programa Carlos Imperial", da TV Tubi, final dos anos 70). Nos anos 80, foi vereador no Rio de Janeiro, jurado dos desfiles de escola de samba e outras maluquices. Morreu em 1992, logo depois de anunciar que estava namorando uma menina 42 anos mais nova. Tem uma excelente biografia do Imperial nas lojas chamada "Dez! Nota Dez! Eu sou Carlos Imperial", do amigo Denilson Monteiro, altamente recomendável.
31.01.2010 às 23:27 - fred
RICARDO
EU LI SEU LIVRO E TIVE UMA DÚVIDA,DEPOIS DA QUEDA DO SIMONAL,QUE FIM LEVOU O CARLOS IMPERIAL? ELE ALEM DAQUELA CARTA DA EPOCA DA PRISAO DO SIMONAL NAO SE MANIFESTOU MAIS?
29.01.2010 às 21:42 - Diego Morais
Ricardo, seus textos são sempre muito interessantes; acompanho seu trabalho há algum tempo. Vou começar hoje a ler "Nem vem que não tem". A propósito: não tem nenhum projeto para um relançamento do "Dias de luta"? To procurando esse livro há três anos, precisava dele pra minha monografia na época, mas mesmo assim ainda gostaria de ler na íntegra. Que venham mais livros!!
Parabéns pelo seu trabalho!!
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