A última parte de "The Beatles: Para Saber Mais". Outro dia, fuçando em pastas mortas, achei a sugestão de capa que eu fiz para o livrinho. Quando achar de novo, atualizo este post com as duas: a que eu sugeri e a que acabou saindo.
Este últimó capítulo é dedicado às carreiras solo. Para fugir do lugar comum das biografias (muito mais as "pocket-biografias") eu salpiquei informações que não são muito comuns em livros dos Beatles, como detalhes dos contratos da banda, informações sobre as turnês e set-lists e as carreiras solo. Espero que vocês tenham gostado.
O fim dos Beatles coincidiu com o desencanto de sua geração. “O sonho acabou”, determinou Lennon em “God”, de seu disco John Lennon/Plastic Ono Band (dezembro de 1970). Era a sensação compartilhada por todo mundo. Brian Jones, dos Rolling Stones (que havia tocado saxofone em “You Know my Name”, dos Beatles), estava morto. Jimi Hendrix, que abrira seu show no Teatro Saville com “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” três dias depois de o LP ser lançado, se intoxicou com barbitúricos e morreu em 18 de setembro de 1970. No mês seguinte, seria a vez de Janis Joplin ser encontrada morta, com várias marcas de agulha no braço. Jim Morrison, dos Doors, morreria em Paris, em 3 de julho de 1971. As drogas, paradigma de liberdade do sonho hippie, acabaram conduzindo Syd Barrett, líder original do Pink Floyd, Brian Wilson, o gênio por trás dos Beach Boys e Peter Green, do Fleetwood Mac, para “o lado escuro da lua”, de onde poucos voltam.
O sonho pop aventado por “I Want to Hold Your Hand” agora subsidiava uma máquina gigantesca e cruel, a indústria fonográfica, o mais lucrativo ramo do entretenimento durante os dez anos seguintes. O sexo e drogas que alimentaram a contracultura dos anos 60, agora moviam uma geração de cabeludos interessados em transar com o máximo de tietes que conseguissem enquanto cheiravam cocaína em doses industriais. Quando os Beatles se separaram, Ringo, o mais velho, tinha apenas 29 anos. A imagem dos quatro juntos ficaria para sempre cristalizada como o ideal de juventude, irreverência, romantismo e aventura na cultura do planeta.
Não chegava a espantar que, como artistas solo e adultos, eles rondassem os tribunais. O processo inicial movido por Paul foi orientado por seus advogados da Eastman & Eastman. Ela visava dissolver a sociedade entre o quarteto e promover uma auditoria durante a gestão de Klein – acusado de retirar comissões indevidas e de diversas ações sem conhecimento da banda (como negociar os direitos de Let it Be, da Apple Films, com a United Artists) e diversas operações suspeitas que, se não chegassem a configurar crime, pelo menos poderiam pôr em dúvida a sua credibilidade para gerir os negócios da banda. Seis anos depois, finalmente Klein foi legalmente afastado da Apple. John, George e Ringo, então, processaram-se uns aos outros para encerrar relações burocráticas. Em 1979, os quatro acabaram processando Klein por vender material promocional da Apple, o que lhe rendeu dois meses de prisão.
As carreiras solo de John, Paul, George e Ringo revelavam mais sobre suas ambições e idiossincrasias do que os esquetes individuais de A Hard Day’s Night poderiam fazer supor. Como era de se esperar, Paul foi o mais determinado e profissional, lançando discos periodicamente, emplacando hits radiofônicos, excursionando, enfrentando a mídia e fazendo videoclipes. Em 1973, ao lado de Linda e do guitarrista Denny Laine (ex-Moody Blues), ele montou os Wings para trilhar exatamente o circuito que queria fazer nos últimos tempos de Beatles. Paul e sua banda (de formação pouco fixa) se apresentavam em ginásios de cidades interioranas, teatros de faculdades e em pequenas casas noturnas. Lançou ótimos discos (Ram, Band on the Run, Flowers in the Dirt, Flaming Pie), mas deu-se melhor em singles iluminados como “Silly Love Songs”, “Live and Let Die”, “Ebony and Ivory”, “My Love” ou “Mull of Kentyre” (este, o compacto mais vendido de todos os tempos na Inglaterra). Esteve duas vezes no Brasil, a primeira em 1990, quando tocou para 184 mil pessoas no Maracanã; três anos depois se apresentou em São Paulo e Curitiba, na turnê do disco Off the Ground. A partir dos anos 80, passou a atuar com fervor em campanhas ambientalistas e em favor do vegetarianismo. Participou de vários projetos especiais, como um disco com Allen Ginsberg, um livro de poemas, um de memórias (escrito por Barry Miles, da Indica Bookstore) e até algumas exposições com suas pinturas.
Ainda que Paul tenha ficado com a fama (justa) de compositor pop infalível, o primeiro ex-beatle a ter um número 1 nas paradas foi George Harrison, com “My Sweet Lord”. Assim que Phil Spector terminou seu trabalho em Let it Be, entrou em estúdio para gravar All Things Must Pass, do guitarrista. Os últimos anos de George na banda foram frustrantes, porque ele vinha crescendo como compositor, mas sua segurança individual se chocava com o autoritarismo de Paul e o protecionismo de John. “Era como ter prisão de ventre”, definiu, com a classe liverpooldiana de sempre. All Things Must Pass é um disco triplo cheio de baladas espirituais como a faixa título ou “Beware the Darkness”, além de “My Sweet Lord”. Harrison organizou o primeiro grande evento beneficente do rock, The Concert for Bangladesh, em Nova York, com renda para o Unicef. Na época, ele telefonou para John e Ringo, mas, como Harrison deixou claro que o convite não se estendia a Yoko, o cantor de “Imagine” recusou. Depois de Living in the Material World (que trazia o sucesso “Give me Love”), livre de sua “prisão de ventre”, o guitarrista foi cada vez mais dedicando-se a sua vontade de não ser famoso. No fim da década, já se considerava mais um jardineiro do que um músico. Entre 1980 e 2001, lançou apenas quatro álbuns.
Ringo, abençoado pela falta de expectativas, começou os anos 70 com dois projetos pessoais: Sentimental Journey, com hits dos anos 30 e 40, e Beacoups of Blues, de country, gravado em Nashville – ambos, especialmente o segundo, deliciosos. Até meados da década, tinha emplacado mais sucessos no hit parade inglês do que os três amigos: “Photograph”, “It Don’t Come Easy”, “Back Off Boogaloo” e “You’re Sixteen”, entre outras, sempre com a pequena ajuda de amigos como John Lennon, George Harrison e Eric Clapton. Sua fama de afável lhe permitiu continuar colaborando com os ex-colegas e também com gente como os Beach Boys, The Band, Peter Frampton e Bob Dylan. Fez alguns filmes com relativo desembaraço, como O Homem das Cavernas (Caveman) ou A Grande Estrela (Sextette). Os anos 80 foram dedicados a sua recuperação do alcoolismo. Na década seguinte, montou a All-Starr com figurões dos anos 60 como Joe Walsh ou John Entwistle, tocou no circuito de medalhões europeu e gravou vários discos ao vivo, retrospectiva e algum material inédito.
Lennon, por sua vez, apesar da carreira solo curta (que se estendeu entre 1969 e 1975 e, depois, em 1980), foi, de longe, o mais polêmico e controverso. Com Yoko, aprendeu a transformar cada pequena declaração ou compromisso artístico em happenings. Em sua estréia solo, de 1970, exorcizava seus fantasmas sobre a religião, sobre a mãe, sobre os Beatles, sobre família, o medo do futuro. No ano seguinte, em Imagine, voltou a equilibrar suas “mensagens” diretas com sua habilidade pop. O álbum liderou as paradas dos dois lados do Atlântico e fez diversos clássicos como “Jealous Guy”, “Oh, my Love”, “How” e a faixa-título. Após Imagine, Lennon trocou a Inglaterra por Nova York, onde desenvolveu carreira musical irregular, com álbuns mal cuidados completamente políticos (Some Time in New York City, que trouxe problemas com o FBI e a imigração) ou depressivos e sombrios (Mind Games, feito durante a separação de Yoko, que ocorreu entre o fim de 1973 e o início de 1975). Por conta disso, a carreira de Lennon sempre foi mais objeto de culto do que de sucesso. Seu primeiro top-hit só veio em 1974, com “Whatever Gets You Thru the Night”. Entre o ano seguinte (quando ele e Yoko reataram) e 1980, o casal se retirou da vida artística para cuidar dos primeiros anos de vida de seu primeiro filho, Sean Ono Lennon – que, adulto, também se decidiria pela música. John voltou à carreira com um disco sereno de belas canções pop, Double Fantasy (que fez os sucesso “Starting Over”, “Watching the Wheels” e “Woman”), que planejava suceder rapidamente com Milk and Honey, ambos divididos com Yoko Ono (surpreendentemente próxima das canções de formato mais convencional). Na noite de 8 de dezembro de 1980, quando regressava do estúdio, um desequilibrado mental, Mark David Chapman, lhe abordou na frente do edifício Dakota, onde morava em Nova York, e lhe disparou cinco tiros. Lennon, o beatle pacifista, morreu a caminho do hospital.
De um dia para o outro, o mundo embruteceu e envelheceu séculos. Paul, George e Ringo gravaram (em estúdios separados) uma canção memorial, “All Those Years Ago”, grande sucesso de George Harrison, o que ajudou a alimentar, por mais poucos anos, os constantes boatos de que os Beatles se reuniriam – eventualmente com Julian Lennon ocupando o lugar do pai. Na verdade, esta não era a primeira vez que três-quartos da banda gravavam juntos. John, Ringo e George tocaram em “I’m the Greatest”, um single de Ringo de 1973.
Poucos foram os encontros entre os ex-beatles desde 1970. George participou da primeiríssima formação da Plastic Ono Band e tocou no álbum Imagine, mas rompeu com o colega após Concert for Bangladesh. Ringo gravou com todos os outros três Beatles e manteve contato pessoal com eles. Paul visitou John em Los Angeles em 1974 quando (ironia das ironias) tentou servir de cupido para que ele voltasse para Yoko. Depois, com o nascimento de Sean, os dois parceiros voltaram a se falar sobre fraldas e mamadeiras e Paul chegou a visitar os Ono Lennon em Nova York. Quando Ringo casou-se com a atriz Barbara Bach (a quem conhecera durante as filmagens de O Homem das Cavernas), em 1981, Paul e George estavam presentes.
Nessa época, os negócios em comum da banda eram gerenciados pelo velho amigo Neil Aspinall, agora diretor da Apple, num pequeno escritório para quatro pessoas. Seu trabalho, basicamente, era servir de intermediário entre as partes conflitantes, desemaranhar contratos antigos, renegociar direitos (referentes a discos, filmes, desenhos animados, fotos etc), registrar tudo o que conseguisse – como o logotipo da banda ou próprio nome “Apple”, que lhes rendeu uma gorda quantia com o surgimento da Apple Computers.
O contrato dos Beatles com a EMI firmado em 1967 expirou em 1976. Imediatamente, chegou às lojas uma nova fornada de lançamentos (o LP Magical Mystery Tour bolado pela Capitol americana, o disco ao vivo Live at The Hollywood Bowl gravado entre 1964 e 1965), coletâneas temáticas e uma nova série de singles. O sucesso continuava a impressionar: o single Yesterday, inédito na Inglaterra, chegou à oitava posição; Hollywood Bowl foi número um. A EMI, então, começou a reunir material para uma coletânea de canções inéditas, pesquisadas nos arquivos de Abbey Road.
Vários funcionários foram destacados para a pesquisa (o que terminaria por abastecer o mercado de discos piratas por um bom tempo), que se estendeu até o início de 1980. Entretanto, antes que pudessem apresentar o projeto à banda, Lennon foi assassinado. Somente três anos depois a gravadora retomaria o trabalho, destacando o engenheiro de som John Barrett, desta vez procurando também versões alternativas de canções conhecidas. Em agosto do ano seguinte, depois de anos de pesquisa e meses de retoques em estúdio, finalmente um repertório de 13 faixas foi fechado. O engenheiro Geoff Emerick foi chamado para dar “aquele trato” no material. Tudo isso para que Paul, George, Ringo e Yoko vetassem o disco assim que o ouviram – havia muitas edições, cortes e maquiagem de estúdio. Sessions (como havia sido batizado) foi cancelado e o assunto foi esquecido por anos.
O que ocorria é que a Apple estava movendo um processo multimilionário contra a EMI/Capitol por royalties atrasados não pagos. A situação só se resolveria em 1986, quando o grupo recebeu quase 10 milhões de dólares. Apple e EMI passaram a trabalhar mais em estúdios e menos em tribunais. Primeiro, para lançar o catálogo do grupo em CD, em 1987. Em seguida, para planejar discos com material inédito – sempre concebidos com o envolvimento total da banda e de George Martin.
Entre vários projetos, o mais ambicioso era a Anthology, que expandiria o malfadado Sessions em tamanho, informação e profundidade. O engenheiro de som Allan Rouse coordenou a pesquisa em tapes, acetatos e gravações piratas. O diretor Geoff Wonfor coordenou a equipe que cuidava de reunir, restaurar e editar imagens em filme, videotape e gravações pessoais. Supervisionando tudo, estava Neil Aspinall, que já em 1969 fora incumbido de catalogar material dessa natureza, num projeto biográfico chamado The Long and Winding Road que acabou abortado. Em 1992, Paul, George e Ringo começaram seu envolvimento e deram caráter oficial à coisa. Intencionalmente, além de gravar horas de entrevistas inéditas, o trio remanescente produziria a música incidental do documentário. Entretanto, Harrison e Aspinall sugeriram que a banda se reunisse em estúdio novamente, trabalhando sobre algum tape inacabado deixado por Lennon. Em Nova York, Paul recebeu de Yoko duas fitas-cassete com ensaios feitos entre 1977 e 1979, período em que John ficou afastado dos estúdios e dos palcos.
A primeira sessão ocorreu em fevereiro de 1994. Foi um encontro de cavalheiros. O produtor foi sugestão de Geoge – seu velho amigo Jeff Lynne, ex-Electric Light Orchestra. O estúdio era de Paul McCartney, em Sussex. Ao todo, os Threetles, como foram apelidados pelos fãs, se reuniram em dois dias de 1994 e seis dias em 1995 para trabalhar em “Free as a Bird”, “Real Love”, “Grow Old with Me” e “Now and Then”. Somente as duas primeiras foram concluídas e usadas como singles que puxaram os dois primeiros volumes da série de três CDs-duplos Anthology. O documentário foi exibido em 94 países e assistido por 420 milhões de pessoas – e, em versão com mais de 10 horas, foi lançado em VHS, vídeo laser e DVD. Um livro foi editado e camisetas, vinis e bugigangas criadas. Só com Anthology, a Apple de Neil Aspinall lucrou 130 milhões de dólares, mais do que em todos os loucos anos 60.
Foi o mais próximo (e mais digno, diga-se) que o mundo poderia esperar de uma volta dos Beatles. Além de encher os bolsos dos três senhores de Liverpool (e da senhora de Tóquio), ajudaram a mostrar para as novas gerações uma das mais belas histórias do Século 20, envolvendo idealismo, inteligência, desafio e companheirismo. Mais do que nunca, se reverencia os Beatles como ícone máximo de um tempo em que a música importava mais do que o sobe-e-desce do dólar ou o risco-país – um tempo que parece perdido para sempre, donde se conclui que a mitologia beatle está absolutamente fora de ameaça.
George Harrison morreu em 29 de novembro de 2001, após anos lutando contra o câncer – a mesma doença que levou Linda Eastman três anos antes. Paul McCartney e Ringo Starr subiram juntos em um palco pela primeira vez exatamente um ano depois, no Concert for George do Royal Albert Hall de Londres. Entre Ravi Shankar, Eric Clapton e vários amigos, os dois beatles tocaram “For You Blue” e “Something”, para uma platéia emocionada. O concerto foi lançado em DVD em 2003.