Quarto dos cinco capítulos do livro "Beatles: Para Saber Mais", desta vez sobre os anos finais da banda. Subo o capítulo final, sobre as carreiras solo, na segunda-feira, beleza?
Sgt. Pepper, lançado no meio do famoso “verão do amor”, havia recolocado os Beatles no cenário musical. Apesar de manter muitas das características da banda (o bom-humor, o apego por melodias assobiáveis, a eletricidade), fazia com que os Mop Tops agora fossem vistos como “seres mutantes, agentes evolucionários enviados por Deus, dotados de poderes misteriosos que lhes permitem criar uma nova raça humana”, como definiu o guru psicodélico Timothy Leary. Derek Taylor, secretário de imprensa da banda desde 1965, estava em Los Angeles organizando o primeiro dos grandes festivais de rock ao ar livre, o Monterey Pop; John Lennon dava entrevistas exclusivas (disputadas a tapa por conglomerados mundiais) a jornalecos independentes americanos como o Rolling Stone; Paul McCartney tirava dinheiro do próprio bolso para ajudar na fundação da revista underground International Times. John e George iam a programas de TV discutir a meditação transcendental. Toda a banda endossara um abaixo-assinado publicado em grandes jornais ingleses pedindo a liberação da maconha. Paul assumira em rede nacional de TV que tomava LSD. Todo mundo apoiava as nascentes rádios piratas que tocavam rock, soul e blues alternativo. Os tempos estavam mudando rápido. A morte de Brian tirou os Beatles do prumo – definitivamente.
John, como efeito de seu deslumbre pelo ácido, estava promovendo a “destruição de seu ego”, o que o levou a se apegar cegamente ao Maharishi. Seu isolamento sensorial e seus problemas pessoais – especialmente o casamento com Cynthia Powell, com quem se unira em 1962, por conta de uma gravidez indesejada – contrastavam com o auge criativo de McCartney. Depois de “Yesterday” e “Eleanor Rigby” (os primeiros números absolutamente solo de um beatle gravado dentro da banda), Paul ganhou confiança como criador e homem de idéias. Passou não só a explorar seu talento como compositor de baladas e artesão pop (seis entre os últimos nove singles da banda traziam composições suas no Lado A), mas em criar personagens (Sargento Pimenta, Billy Shears, Eleanor Rigby, Rocky Raccoon etc) e conceitos sobre os quais as banda poderia trabalhar. Deixou de ser o vice-líder para ombrear o comando da banda com Lennon. E quanto mais aquele crescia, mais este se intimidava.
Enquanto todos ainda estavam atabalhoados com a morte de Brian, Paul cuidou de anunciar que “ninguém poderia substituir” seu empresário e que a própria banda cuidaria de sua administração. Duas semanas após o enterro de Epstein, a banda já iniciava as filmagens de Magical Mystery Tour. Era mais uma idéia esquisitona de Paul: um filme autoproduzido e autodirigido, para a programação natalina da televisão britânica, com inclinações artísticas e referências psicodélicas, sobre uma “viagem mágica e misteriosa” de ônibus, entre a banda e os mais bizarros personagens. Baseado em truques pseudo-vanguardistas de direção (que acabou nas mãos de Paul, basicamente), locações bucólicas e cores saturadas, o filme foi exibido pela BBC em preto-e-branco e levou uma surra sem precedentes da imprensa.
Em fevereiro de 1968, a banda resolve ir mais fundo em seu flerte com o hinduísmo e se inscreve no curso promovido por Maharishi Mahesh Yogi em Rishikesh, na Índia. Além do quarteto, suas esposas e alguns agregados, havia dezenas de estrelas, como Donovan, Mike Love (dos Beach Boys), Paul Horn, a atriz Mia Farrow e sua irmã Prudence. Em Rishkesh, os Beatles estiveram completos por menos de duas semanas. Ringo voltou primeiro, cheio de problemas alérgicos com a comida local; Paul ficou por pouco mais de um mês, tempo que considerou “suficiente”; John voltou vinte dias depois, chocado com boatos que davam conta da carnalidade do Maharishi em relação a algumas garotas do retiro. George só retornou no final de abril, quase dois meses depois de chegar. Enquanto estavam na Índia, os Beatles eram agraciados com quatro prêmios Grammy por Sgt. Pepper. E escreviam “toneladas” de novas músicas, inspirados pelas palestras que ouviam e pelos amigos com quem conviveram por lá.
No dia 11 de maio, finalmente, Paul e John viajam para Nova York para anunciar o início das atividades da Apple – no campo da música, cinema, literatura, moda, comércio e equipamentos eletrônicos. A idéia por trás da coisa toda era a de que os Beatles centralizassem suas atividades artísticas (o que seria uma constante a partir dos anos 90 entre grandes artistas, de Beastie Boys a Marisa Monte, mas uma confusa novidade naquele tempo) e dessem chance a novos talentos. A frase usada por Lennon na coletiva que se tornou célebre era a de que, com o surgimento da Apple, ninguém precisaria “implorar de joelhos” por uma chance. Colocaram anúncios nos jornais pedindo material e realmente revelaram ótimos nomes como James Taylor, Mary Hopkins e o grupo de power-pop Badfinger.
Talvez se tivesse se mantido focada no negócio da música, a Apple tivesse se sagrado um sucesso. Mas havia idéias para equipamentos eletrônicos criadas pelo grego Magic Alex, filmes, uma revista, uma assessoria de imprensa movida a drogas, etiquetas de cetim, e todo uma engrenagem montada para torrar dinheiro. A Apple Boutique, inaugurada no fim de 1967, fechou as portas oito meses depois, com um prejuízo enorme. Enquanto os Beatles produziam outros artistas (como George a Jackie Lomax e Paul a Mary Hopkins), se envolviam em todas as decisões corporativas – do sol artificial prometido por Magic Alex ao dinheiro usado para comprar ópio em vez de tecido – e, além disso, evidentemente, precisavam voltar a gravar. E assim fizeram no dia 30 de maio. Tinham tantas canções novas que decidiram lançar um álbum duplo. Já no primeiro dia de gravações, John apareceu nos estúdios com sua nova namorada, Yoko Ono.
Japonesa residente em Nova York, Yoko Ono era seis anos mais velha do que John e fazia parte do grupo vanguardista americano Fluxus. Estava em Londres desde setembro de 1966, participando do simpósio A Destruição na Arte, organizado pela Indica Bookstore & Gallery. A Indica era uma livraria e galeria underground, fundada sete meses antes pelo crítico John Dumbar, pelo livreiro Barry Miles e pelo músico e produtor Peter Asher (da dupla Peter & Gordon, irmão de Jane Asher, então noiva de Paul) na região de Saint James, em Londres. Em novembro, depois de muitos saraus, happenings e lançamentos de livros vanguardistas, a Indica abrigou uma exposição própria de Yoko, Pinturas e Objetos Inacabados. John Lennon era grande amigo de Dumbar – unidos graças às drogas – e apareceu na Indica quando Yoko estava terminando de ajeitar suas instalações. Lennon ficou intrigado com as obras extravagantes e provocativas da artista (que ficou o tempo todo de braços dados ao beatle e se ofereceu para ir embora com ele, que recusou).
Durante o ano-e-meio seguinte, Yoko periodicamente enviou a Lennon cartas e postais com sugestões artísticas e poemas de vanguarda. Conseguiu que o músico lhe patrocinasse uma mostra, Yoko Plus Me, em setembro de 1967. Quando do curso na Índia (onde Yoko também conseguiu fazer chegar sua correspondência), John se agarrou à meditação com a mesma intensidade com que havia feito com o rock’n’roll, com os Beatles, com Brian Epstein e com o LSD. Mas acabou decepcionado com o Maharishi e, já na viagem de volta a Londres, bombardeou sua esposa Cynthia com histórias de casos extra-conjugais e aventuras sexuais com tietes, amigas do casal e conhecidas. A relação do casal piorou muito – assim como a inclinação de John à bebida e às drogas. Dali um mês, após uma reunião em que, absolutamente alterado, anunciava à diretoria da Apple haver descoberto ser Jesus Cristo, John Lennon ligou para Yoko a convidando para passar a noite em sua casa. Cynthia estava de férias com Julian na Grécia e ao voltar encontrou a japonesa vestindo seu robe. Evidentemente, o beatle perdeu a ação do divórcio e foi processado por adultério. A partir daí, a vida de John e Yoko se concentraria a happenings, campanhas pela paz, curtas-metragem, mostras de arte ou gravações de discos de música aleatória produzida com manipulação de tapes (como os dois volumes de Unfinished Music, lançados pela Apple, sendo que no primeiro, Two Virgins, o casal aparecia em nu frontal na capa). John se apegou com todas as forças a Yoko – e sua dependência fica clara no single “Don’t Let Me Down” (“não me decepcione”). Anos de psicanálise depois, Lennon admitiria: “estou sempre esperando uma mãe, ou um pai, mas eles nunca vêm”.
A presença constante de Yoko aonde quer que o beatle fosse (inclusive ao trabalho ou ao banheiro) violou a organização da banda. E o afastou mentalmente do grupo. Suas contribuições para o novo disco eram evidentemente peças solo contando, eventualmente, com o instrumental dos Beatles. “Revolution 9”, uma colagem caótica de loops e fitas pré-gravadas, encontrou brava resistência para ser incluída – e só entrou porque outra de suas contribuições estrambóticas, “What’s the New, Mary Jane?” ficou de fora. A tensão era tão grande que, em determinado ponto, Lennon sugeriu que lhe fosse delegada uma “cota” de canções nos discos dos Beatles, que ele preencheria como quisesse. Os outros três, claro, negaram.
Na verdade, todo o Álbum Branco (assim chamado por causa de sua capa totalmente alva, bolada pelo artista pop Richard Hamilton) era o retrato de uma banda artisticamente desintegrada. Paul perpetrando baladas delicadas e inspiradas (“Blackbird”, “I Will”) e pequenas excentricidades pop (“Ob-la-di, Ob-la-da”, “Helter Skelter”); George, atingindo o ápice como compositor, com canções espirituais e serenas (“While my Guitar Gently Weeps”, “Long, Long, Long”); John exteriorizando seus fantasmas. Com a data de lançamento prevista para 22 de novembro, as gravações chegaram a tal ponto de precisarem de dois produtores (George Martin e Chris Thomas) e até três estúdios funcionando ao mesmo tempo. Enquanto gravavam mais de 30 faixas para o Álbum Branco, ainda supervisionavam a trilha do longa-metragem Yellow Submarine, lançavam um novo single, Hey Jude/ Revolution e mergulhavam em sua pior crise pessoal. Uma das sessões de estúdio chegou a durar 24 horas ininterruptas. Em 22 de agosto de 1968, o boa-praça Ringo deixou a banda por duas semanas, deixando claro que as coisas não iam bem.
George não esperou para sequer conferir as mixagens de The Beatles (nome verdadeiro do Álbum Branco) e viajou para Los Angeles. McCartney faz o mesmo com a fotógrafa americana Linda Eastman, sua nova namorada, em direção a Nova York. A popularidade da banda, entretanto, não arrefecia. Foram 5 milhões de cópias de Hey Jude e 19 milhões de Álbuns Brancos. Mas nem isso ajudou a Apple a operar no azul. O borderô da empresa servia para pagar cerveja, caviar, uísque e haxixe para jornalistas, hippies e motoqueiros Hell’s Angels que apareciam por lá. Até as calhas da sede da gravadora foram roubadas. Vários funcionários simplesmente pediram as contas, desesperados com o caos reinante.
Em uma entrevista ao jornal Disc and Music Echo, Lennon afirma que “se a gravadora continuar perdendo dinheiro em tal velocidade, terá de fechar as portas em seis meses”. No dia seguinte, recebeu uma ligação do americano Allen Klein, dono da ABCKO que cuidava dos negócios, entre outros, dos Rolling Stones e dos Animals. John e Yoko receberam-no e simpatizaram com ele. Dali a pouco, Lennon o apresentou aos três colegas, dizendo que Klein cuidaria de suas finanças pessoais. George e Ringo entenderam que o melhor seria que ele fosse empresário dos Beatles como um todo – e cuidasse da Apple como conseqüência. Paul, que tentava arranjar o posto para seu sogro, o também americano Lee Eastman, e que antipatizava ferozmente com Klein, foi voto vencido.
Klein fez a faxina: dispensou dezenas de pessoas, mandou embora todo o pessoal da cozinha, todo o núcleo de eletrônicos, o tradutor multilíngüe e fechou a Apple Retail. Neil Aspinall foi salvo por intervenção da banda. Outros funcionários, como o diretor-artístico Peter Ascher, preferiram sair por conta própria, entendendo que os tempos de paz-e-amor eram passados. Ao mesmo tempo que chegava à Apple a péssima notícia de que Dick James havia vendido seus 32% da Nothern Songs para o conglomerado ATV (que ainda ofereceu quase 1 milhão de libras pelos 30% pertencentes à banda), Klein entrava numa feroz batalha pela renegociação do contrato da banda com a EMI, além de iniciar uma intervenção contra a NEMS.
A maré ruim atingiu seu ponto máximo com o projeto Get Back – a mais devastadora de todas as más idéias do período. Em janeiro (logo após as traumáticas gravações do Álbum Branco, bem no meio das batalhas legais e da acaloradas brigas pela chegada de Klein), Paul veio com a idéia de que a banda deveria “se reaproximar”, se “redescobir” como um grupo de rock’n’roll e encarar uma turnê com datas-surpresa em pequenas casas noturnas do norte da Inglaterra. George estava paranóico com a idéia de que suas composições (cada vez melhores) sempre eram sabotadas por John e Paul. Lennon, cada vez mais absorto na paixão de Yoko e no vício na heroína, estava distante. Ringo, como baterista, gravava sua participação logo nas primeiras sessões e ficava o resto do tempo entediado. Paul, com seu profissionalismo a toda prova (foi por isso que ele foi admitido nos Quarry Men, afinal), apenas irritava a todos ao tentar manter o grupo unido. Era o que George chamava de “o inverno do descontentamento”. Ninguém queria sair em turnê.
Rapidamente, Paul adaptou a idéia para um filme que registrasse a banda compondo e ensaiando um repertório inédito para um “grande show”, um único show, um happening em algum anfiteatro romano, em um barco ou em um dos clubes underground da época. Michael Lindsay-Hogg foi chamado para filma-los no estúdio de cinema de Twickenham, mas, como rapidamente notou John Lennon, “não dá para fazer música às oito da manhã num lugar estranho cheio de luzes coloridas e gente filmando você”. As câmeras flagravam discussões, o desinteresse latente de todos e um deprimente briga entre Paul e George Harrison. Uma semana depois de iniciadas as gravações, uma nova briga de George (desta vez com John, longe das câmeras) lhe fizeram abandonar as sessões e deixar a banda. “A gente se vê por aí, nos clubes” – ele disse, enquanto apanhava suas coisas.
Embora Lennon tenha chegado a sugerir chamar Eric Clapton, a banda preferiu negociar com Harrison a sua volta: nada mais de “grande show” no exterior, nada mais de gravações em Twickenham. As músicas novas seriam ensaiadas nos estúdios da Apple e, se Lindsay-Hogg quisesse fazer o filme, que fosse para lá. O “grande show” que encerraria a fita e viraria disco seria gravado no teto da Apple mesmo – na verdade, o concerto se resumiu às suas primeiras sete músicas, porque a polícia apareceu para acabar com o tumulto que a banda estava causando nas ruas londrinas. Era 30 de janeiro de 1969 – a última vez que os Beatles tocaram juntos ao vivo.
Ao ouvirem os tapes, a banda achou que o LP Get Back fora um tremendo erro – e decidiram engaveta-las até que o filme ficasse pronto. Além disso, toda sua gravação traumática (captada com triste precisão por Lindsay-Hogg) eram muito menos o registro de uma banda voltando às origens (“get back to where you once belong”) do que o inquestionável fotograma de um grupo se separando. Nos meses seguintes, Ringo foi filmar Um Beatle no Paraíso (The Magic Christian), John e Yoko fazem sua primeira apresentação, em um festival de jazz em Cambridge – seria a primeira vez que um deles subia ao palco sem os outros – e se casam, em Gibraltar, pouco depois. E fizeram o famoso “bed-in”, quando receberam repórteres em um hotel deitados na cama, de pijama, cantando e pregando a paz. George lança seu disco solo Electronic Sounds (um dos marcos pioneiros na música sintetizada ligada ao pop), John lança o single “Give Peace a Chance”. Paul, também recém-casado com Linda, grava com o guitarrista americano Steve Miller. Eles não poderiam estar mais separados.
Entretanto, no primeiro dia de julho, os Beatles decidiram voltar aos estúdios em Abbey Road para dar um fim digno à sua carreira discográfica (ainda que isso não tenha sido declarado abertamente). Chamaram George Martin, que exigiu que tudo fosse feito “como antigamente”. Foi, em termos: as gravações foram rápidas (menos de dois meses), mas as brigas só não foram maiores porque raramente os quatro estavam juntos no estúdio. John sofrera um acidente de carro na Escócia porque dirigia sem óculos e só apareceu nos estúdios 21 dias depois – o médico recomendara repouso a Yoko, então o casal mandou instalar uma cama dentro de Abbey Road. Quando estavam todos juntos, as farpas eram inevitáveis. Depois de tanto tempo, eram quatro estranhos dentro de uma mesma sala. John queria fazer os backing vocals em “Oh! Darling”, de Paul, mas não se sentiu confortável para pedir; por sua vez, McCartney não se importou que John fizesse todas as vozes em “Come Together”. O baixista, fracassado em sua tentativa de manter os Beatles unidos, chegou a deixar os estúdios chorando, certa vez. A última sessão com os quatro juntos ocorreu em 20 de agosto de 1969 – dois dias depois, a banda se encontrou na nova mansão de Lennon, em Tittenhurst Park, para a última sessão de fotos. Batizaram o disco de Abbey Road, numa lacônica homenagem a sua “casa” desde 1962. Apesar de tudo, esse é considerado um dos melhores discos dos Beatles – em recente votação organizada pelo semanário inglês New Musical Express, o álbum ficou em segundo lugar, atrás de Revolver e a frente do Álbum Branco.
A partir de então, John, Paul, George e Ringo só se encontrariam em reuniões administrativas. Já em 13 de setembro, Lennon levou sua Plastic Ono Band (uma confraria de músicos convidados, naquela ocasião contando com Eric Clapton e Klaus Voormann) para um festival em Toronto, no Canadá. Uma semana depois, quando Allen Klein reuniu o grupo para anunciar ter renegociado os royalties da banda com a EMI (de 17,5% para impressionantes 25%), Lennon comunicou que estava deixando os Beatles. Todos combinaram de não anunciar a decisão publicamente. Assim, ainda que Ringo estivesse em estúdio cuidando de seu primeiro disco solo; ainda que George se ocupasse em gravar todas as músicas que havia composto nos últimos anos e recusadas em favor das de Lennon & McCartney; ainda que John e Yoko saracoteassem pelo mundo em happenings pela paz, lançassem singles solo (como Cold Turkey, que falava sobre a abstenção da heroína, droga que, supostamente, teria causado o aborto que Yoko sofreu em outubro); ainda que Paul estivesse incomunicável em seu sítio na Escócia, enchendo a cara e deixando a barba crescer, todos os rumores do fim da banda eram negados com evasivas.
A última sessão de estúdio dos Beatles ocorreu em 3 de janeiro de 1970, quando Paul, George e Ringo se encontraram para concluir a canção I, Me, Mine, de Harrison, prevista para entrar na trilha do filme Get Back. Dois meses depois, John Lennon convidou um dos heróis da banda, o produtor Phil Spector, para que “re-trabalhasse” as fitas do projeto. Paul – que gravava em segredo seu primeiro LP solo, tocando todos os instrumentos – não foi sequer informado. Em uma semana de trabalho, Spector cortou a jam-session “Dig it”, alongou “I Me Mine”, adicionou uma orquestra e coral feminino em “The Long and Winding Road”, reduziu a rotação e acrescentou cordas em “Across the Universe”, editou diálogos, acrescentou-os ao disco, remixou tudo e transformou o projeto Get Back no álbum Let it Be. John achou que o produtor americano “salvou” o disco. Paul pediu para que ele refizesse suas músicas, mas foi ignorado.
Ao mesmo tempo, o baixista descobriu que Let it Be, filme e disco, seriam lançados em maio, poucos dias depois do que havia planejado publicar sua estréia solo. Enlouquecido com o Get Back que lhe fizeram pelas costas, preso num contrato igualitário com os três ex-amigos (em que todos os custos, lucros e prejuízos eram repartidos), Paul e Derek Taylor fizeram um texto para a imprensa para acompanhar McCartney (que foi lançado em 17 de abril, como previsto inicialmente) em forma de entrevista. Nele, dizia que não sabia se seu rompimento com os Beatles seria temporário ou definitivo, mas que se dera por motivos “pessoais e comerciais”. Questionado sobre a parceria com John Lennon, se ela poderia voltar à ativa na composição, simplesmente disse “não”.
John se sentiu traído, porque queria ser ele a anunciar (“ou a não dizer nada”, como ressaltou o baixista). “Paul usou da separação para vender discos”, acusou em entrevista à Rolling Stone. Durante muitos anos, acreditou-se que foi a ambição de Paul McCartney em lançar-se individualmente que o levou a deixar os Beatles e provocou a separação. A impressão seria reforçada quando, em julho, Paul entrou judicialmente com uma ação para dissolver a sociedade. Do jeito com que a Apple foi criada, isso precisaria ser feito processando John, George e Ringo. Com a “traição” e o processo de Paul e a batalha verbal e legal que se iniciou em seguida, o que poderia ser um intervalo no relacionamento dos Beatles, transformou-se, definitivamente, no fim da maior banda de todos os tempos.