11.09.2009 às 12:44 - ivo viu o livro
Beatles, Capítulo 03: Oito Milhas Acima
Agora, os anos psicodélicos dos Beatles. Ilustrando o post, o sensacional quadro "Tomorrow Never Knows", do Klaus Voormann, o mesmo que pintou a capa do "Revolver". Os Beatles bem que poderiam ter usado essa arte no encarte do "Revolver" remasterizado, não?
A entrada dos Beatles na cultura das drogas ampliou sua margem de manobra. Rapidamente, foram sumindo de canções de apelo “por favor, comprem nosso disco”, como definiu McCartney, e surgindo pequenos experimentos. O single seguinte, I Feel Fine, por exemplo, era introduzido por uma distorção causada pelo feedback da guitarra – algo inédito na música, que seria explorado a seu limite por Jimi Hendrix anos depois. Do lado de Dylan, o americano eletrificaria sua música, levando ao rock uma carga de credibilidade inédita e dando largada ao folk rock. Entre 1965 e 1970, o centro de toda transformação social – da moda, dos costumes, das drogas, dos direitos civis, do sexo e das aspirações políticas da juventude – se encontravam na música popular. E os Beatles estavam no olho disso tudo.

A facilidade com que os quatro se entusiasmavam com novidades (no caso, a maconha, que os levaria ao LSD dali a poucos meses) era proporcional à facilidade com que enjoavam das coisas que já conquistaram. O cinema, que tanto queriam fazer, parecia um aborrecimento durante as gravações de seu segundo longa-metragem, de novo dirigido por Richard Lester. Descontentes com os diálogos (escritos por Marc Behm, em vez do brilhante Alun Owen de A Hard Day’s Night), os quatro passavam as filmagens chapados de maconha e inventando lugares exóticos aonde filmar, como as Bahamas ou os Alpes suíços. Foi Lester que sugeriu o título, Help!, que John usou para compor uma de suas primeiras canções “verdadeiras”. Influenciado por Dylan, Lennon começou a usar de sua música para externar, por exemplo, seu descontentamento com o casamento e sua inadequação em relação ao estrelato.

Musicalmente, o grupo também mudara. A instrumentação beat dos dois primeiros álbuns evoluíra para um tipo de música mais completa. Primeiro veio a guitarra Rickenbacker de 12 cordas de George, a serviço de uma nova leva de canções compostas ao piano. Depois, as influências da música folk (“I’m a Loser” ou “You’ve got to Hide Your Love Away”) e do blues (“Mr. Moonlight”, “The Night Before”). A canção mais famosa dessa fase, “Yesterday”, por exemplo, foi totalmente composta por Paul, orquestrada por George Martin e gravada sem a participação de nenhum outro beatle.

Até junho de 1965, quando iniciaram uma nova turnê européia (França, Itália e Espanha), os Beatles gastaram seu tempo gravando, compondo e participando de diversas e insuspeitas aventuras. John escreveu seu segundo livro (A Spaniard in the Works, sendo que o primeiro foi In His Own Write, de 1964). Ringo se casou. Toda a banda se tornou MBE (membro do império britânico, com direito a cerimônia no Palácio de Buckinghan e medalhinha condecorativa). E continuaram se relacionando com as mentes vanguardistas do pop (Allen Ginsberg, os Byrds, Gregory Corso, William Burroughs e vários músicos, poetas, marchands e agitadores culturais). E fumando maconha.

Help! estreou em 29 de julho. Havia apenas sete músicas da banda na fita – um lado do LP de mesmo nome. A banda devia um terceiro filme para a United Artists. Cogitou-se uma adaptação do western A Talent for Loving, de Richard Condon; falou-se em Shades of Personality, sobre um rapaz perturbado com psicose quádrupla (cada beatle interpretaria uma das personalidades do infeliz). Mas a verdade é que eles já tinham trabalho demais. O contrato seria cumprido dois anos depois, praticamente sem envolvimento de nenhum beatle, quando o produtor Al Brodax procurou a UA e ofereceu a idéia do desenho animado Yellow Submarine.

Dois dias depois da estréia de Help! na América, a banda desembarcou para mais uma turnê no país. Brian aproveitou a superexposição do filme para agendar o primeiro show de música em um estádio – no caso, o Shea Stadium de Nova York, inaugurado no ano anterior. 55600 ingressos foram vendidos, o maior público em um show pago até então. Durante os 15 dias de turnê, eles ainda conseguem o vice-recorde de público (colocando 62 mil pessoas na mesma noite, em dois shows no estádio do White Sox de Chicago), conhecem Elvis Presley, dão entrevistas, correm das fãs – que chegaram a esmagar o teto de sua limusine em San Francisco – e toda aquela rotina bleatlemaníaca.

Mal tiveram tempo de desfazer as malas, já voltaram ao estúdio da EMI em Abbey Road para iniciar as gravações de seu novo LP. Rubber Soul sairia no início de dezembro ao mesmo tempo que o single We Can Work it Out/ Day Tripper. Ambos os discos revelavam um assombroso avanço tanto harmonicamente quanto liricamente e musicalmente. A maior parte das canções apresentava base acústica, emoldurada por teclados Hammond, pianos, hamoniuns e cítaras – esta apresentada à banda pelo guitarrista David Crosby, dos Byrds. As melodias são complexas (“Drive my Car”), as letras, inusitadas (“Norwegian Wood”) e o conforto da banda dentro do estúdio era visível. Sem nenhuma cover ou regravação, Rubber Soul mostrava uma unidade tão clara que nem nos Estados Unidos a Capitol ousou extrair um compacto dele – o que inspiraria Brian Wilson, dos Beach Boys, a compor um álbum todo conceitualmente interligado: Pet Sounds.

Exaustos de um ano de correria, o grupo acabou concordando em encarar, de novo, uma pequena turnê pela Inglaterra – dezoito shows, nove cidades, agenda a cumprir em pouco mais de uma semana. Resolveram mexer radicalmente no repertório de seu show. Excluíram pontos-chave como “Twist and Shout” e “Long Tall Sally”, incluíram quatro músicas dos discos que estavam lançando (“If I Needed Someone”, “Nowhere Man”, “We Can Work it Out” e “Day Tripper”) e resolveram usar um teclado no palco pela primeira vez – tocado por John durante “I’m Down” e “We Can Work it Out” e por Paul em “Yesterday”. No show de Liverpool, mais de 35 mil pessoas ficaram de fora. No Hammersmith Odeon de Londres, a multidão enlouquecida destruiu as cadeiras. Mas nada mais disso impressionava uma banda cansada, que mal conseguia ouvir sua música, com aquele equipamento vagabundo e toda a histeria.

Seguiram-se três meses de merecidas férias, quando George Harrison se casou. Agora, ele, Ringo e John viviam com suas esposas em grandes mansões na região de Weybridge-Escher. Paul e sua namorada, a atriz Jane Ascher, estavam no centro do que se chamava Swinging London – a capital inglesa como motor da cultura pop mundial, da moda, das artes plásticas, do cinema alternativo e da badalação noturna, da imprensa underground, das rádios piratas. Pais de família milionários, sintonizados com vanguarda da arte e com a cultura das drogas. Nada mais distante da imagem de ingênuos “mop tops” (como chamavam seus cortes de cabelo) imortalizada em A Hard Day’s Night.

Durante suas férias, John recebeu a repórter Maureen Cleave, do jornal Evening Standard. Amiga da banda havia muito tempo, Cleave preparava a reportagem “Como vive um beatle? John Lennon vive assim”, sobre os hábitos do beatle há mais tempo casado. Cleave falava da decoração em estilo Tudor, de seu pequeno filho Julian, da enorme televisão que ficava o tempo todo ligada e da música indiana que Lennon tocava para as visitas. A repórter quer saber como uma cultura milenar primitiva como a indiana poderia ter tanta penetração entre os jovens ingleses. Lennon, que estava “lendo exaustivamente sobre religião”, respondeu dizendo que “o cristianismo vai encolher e desaparecer” e, para provar que estava certo, exemplificou: “não sei o que vem primeiro hoje, se o rock’n’roll ou o cristianismo. Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo”. E Cleave continuou falando sobre cortinas, sobre sofás, sobre uma fantasia de gorila e sobre seu Rolls-Royce. O texto foi publicado em 4 de março.

No mês seguinte, a banda volta ao trabalho, trancafiada em Abbey Road e extremamente influenciada por música vanguardista, rock psicodélico, o pop-barroco dos Beach Boys e a lisergia dos Byrds. A primeira canção a ser gravada tinha um único acorde, à maneira da música indiana, tamburas, guitarras invertidas e um saco de fitas trazidas por Paul coladas aleatoriamente formando loops que lembravam guinchos de macacos. A letra de Lennon, inspirada no Livro Tibetano dos Mortos, era cantada por meio de uma caixa-leslie para que sua voz soasse como “o Dalai Lama no topo do Himalaia”. Era “Tomorrow Never Knows”. Ao mesmo tempo em que os Beatles se distanciavam voluntariamente do “iê-iê-iê”, o acaso cuidava para completar a mudança de estação.

Três faixas de Revolver, o disco em gestação, foram usadas pela Capitol americana em mais um de suas compilações, um disco chamado Yesterday... And Today. Para a capa, os Beatles enviaram uma foto de uma sessão de março, feita pelo australiano Robert Whitacker, “uma paródia de arte pop”, com os Beatles vestidos de açougueiros, com peças de carne crua e bonecas decapitadas sobre o colo. O LP, lançado nos Estados Unidos em 20 de julho, chegou às lojas causando enorme polêmica por causa do “mau gosto” da capa. Centenas de milhares de cópias tiveram de ser recolhidas e substituídas em questão de dias. Lennon não havia gostado da foto, mas adorou a polêmica: “boa para quebrar nossa imagem de anjos”.

O pior estaria por vir. Enquanto os Beatles embarcavam para nova turnê mundial (Alemanha, Japão e Filipinas), uma revista americana chamada Datebook direcionada ao público teen publicou uma capa com Paul McCartney para uma “edição de frases bombásticas”. E, na capa, a frase de Lennon de três meses atrás: “Não sei o que vem primeiro, se o rock’n’roll ou o cristianismo!” (com ponto de exclamação e tudo). Os Beatles, que já haviam comprado uma briga com os ultra-direitistas religiosos americanos dois anos antes, quando proibiram que os promotores de seus shows segregassem a platéia racialmente, se viram transformados em hereges que se achavam “maiores do que Jesus”. Rádios do sul dos Estados Unidos promoviam fogueiras com os discos e revistas da banda. A Ku Klux Klan ameaçou publicamente o grupo. Brian, que havia agendado uma nova turnê americana para dali poucos dias, preparou um comunicado oficial dizendo que Lennon estava sendo usado fora do contexto. Maureen Cleave veio a público dizer que o beatle apenas quis ilustrar sua opinião de que o cristianismo estava perdendo o contato com o público jovem inglês. O próprio Lennon passou a se desculpar pela maneira com que expressou “um fato”.

Os próximos meses seriam o inferno na terra para a banda. O governo sul-africano proibiu execução de músicas dos Beatles, assim como a rádio espanhola RKT. Entre a Alemanha e o Japão, seu avião enfrentou uma nevasca e, após turbulência, eles tiveram de passar a noite no Himalaia. Chegando a Tóquio, enfrentaram vários protestos porque estariam “violando” o Budokan Hall, até então usado apenas para artes marciais. Pior: devido às regras rígidas de segurança no ginásio, pela primeira vez conseguiram ouvir o que tocavam – as harmonias vocais rebuscadas de “Nowhere Man” ou “Paperback Writer” ou os detalhes de arranjo de “Day Tripper” pareciam arruinados naquelas condições. Nas Filipinas, quase foram linchados por não comparecerem a uma recepção que a primeira-dama Imelda Marcos havia organizado. Tiveram de devolver todo o cachê de seu show. Chegando nos Estados Unidos, no auge da polêmica “maiores que Jesus”, acossados pela imprensa, enfrentavam protestos de um lado e histeria do outro. Por diversas vezes, receberam ameaças de morte. Durante os shows, em estádios, com segurança improvisada, eram alvos fáceis.

Para a turnê americana, de 12 a 30 de agosto, a banda não fez questão sequer de ensaiar um novo repertório. Nenhuma música de Revolver foi incluída. Em Saint Louis, tocaram no meio da lama que se formou após um dia de chuva torrencial. Em Memphis, um rojão disparado do meio da platéia atingiu o palco. Quando encararam as 25 mil pessoas presentes ao show de 30 de agosto, no Candlestick Park de San Frascisco, já haviam decidido: iriam abandonar as turnês. Ao final do show, John virou-se para trás e comentou “foi bom trabalhar com você, Ringo”. Nos camarins, George entrou esbaforido: “é isso, não sou mais um beatle”. Ninguém entendeu nada, até porque a banda não anunciou sua decisão publicamente.

George cortou os cabelos e partiu para a Índia com sua esposa Patty Boyd. John cortou os cabelos e viajou para Almeria para filmar Que Delícia de Guerra, um filme anti-belicista de Richard Lester. Paul compõe, junto com George Martin, a trilha incidental do filme Lua-de-Mel ao Meio Dia. Ringo, após visitar Lennon na Espanha, ficou “por aí”, “engordando”. A banda então anuncia a Brian Epstein que não pretendia sair em nova turnê, nem lançar um novo disco para o natal. Sentindo-se culpado pelo esgotamento nervoso do grupo, preocupado e temendo por seu emprego (já que seu contrato com a banda expiraria no ano seguinte, bem como o dos Beatles com a EMI), Brian se afundou ainda mais nas drogas e no trabalho. Em outubro, ele daria entrada no Priory Hospital por causa de uma overdose de calmantes.

A imprensa dividia-se entre os que achavam que, sem se apresentar ao vivo, os Beatles estariam acabados e aqueles que achavam que a banda já estava mesmo se separando. Numa entrevista, George, cultivando bigode, disse que “tudo o que os Beatles fizeram no começo é um lixo”. John, de óculos redondos, disse que canções como “She Loves You” lhe traziam “memórias infantis”. Brian, de novo, teve de vir a público negar a separação do grupo – ainda que nem os próprios Beatles estivessem tão certos disso.

De qualquer forma, o grupo só voltou a se encontrar em 24 de novembro. Além das roupas, dos penteados e dos bigodes, muito mais havia mudado. Se Please Please Me fora gravado todo em um único dia, agora a primeira faixa ensaiada, “Strawberry Fields Forever”, só seria concluída no dia 29 de dezembro, após várias versões testadas, cortes, edições e overdubs. “Como não teríamos mais turnês, o nosso disco seria a nossa performance”, definiu Paul McCartney. As canções eram trazidas ainda em formato embrionário, discutidas entre a banda e o produtor George Martin e trabalhadas a exaustão.

As idéias foram surgindo e sendo aproveitadas. Paul McCartney e Mal Evans vieram com a sugestão de que o novo disco fosse gravado, não pelos Beatles, mas por uma espécie de alter-ego seu, a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (com nome enorme, como era moda entre os novos grupos psicodélicos). Sargento Pimenta seria o mestre-de-cerimônias do “show”, apresentando as canções. Embora, durante as 700 horas de estúdio, o conceito tenha se perdido, o nome ficou.

Não havia limite para as experimentações. Violoncelos, tapes manipulados, cítaras, tablas, sintetizadores analógicos, metais, harpas, vozes distorcidas, efeitos de sonoplastia e até uma orquestra de 41 músicos da New Philarmonia contratados para tocar apenas 24 compassos aleatórios. Sem contar as várias referências a drogas e o clima psicodélico de ponta-a-ponta (ops!) no disco.

Só a capa custou mais de 3 mil libras (quando o normal era algo em torno de 50 libras), porque a banda contratou o artista pop Peter Blake, o marchand Robert Fraser e o fotógrafo Michael Cooper. Blake expandiu a idéia de uma banda num coreto em uma praça do interior para uma colagem com uma multidão de dignatários escolhidos pelos quatro (ídolos de infância, heróis do pop, gurus indianos, lendas da cultura popular inglesa e até o ex-beatle Stuart Sutcliffe) homenageando a banda do Sargento Pimenta. Quando o disco chegou às lojas, em 1o de junho de 1967, o mundo custou a acreditar no que ouvia.

O temor (compreensível) quanto ao potencial comercial do disco caiu por terra depois de uma semana. Sgt Pepper entrou direto no número 1 na Inglaterra e nos Estados Unidos, vendendo 500 mil unidades em uma quinzena. Ao longo do tempo, o LP angariou 11 milhões de compradores. Com ele, os Beatles se tornaram referência não apenas junto ao nascente movimento hippie, como passaram a ser levado a sério por críticos de arte e veículos até então apenas dedicados à música erudita.

O sucesso de Sgt Pepper aumentou a autoconfiança da banda, especialmente de Paul, e a distanciou ainda mais de Brian Epstein. O empresário pouco teve a ver com a feitura do álbum, chegando a objetar, por exemplo, o projeto da capa – uma das mais célebres da história do rock. As últimas ações de Brian como empresário dos Beatles foram agendar a participação da banda no programa Our World (um especial transmitido via satélite para vários países da Europa, em que o grupo tocou seu single “All You Need is Love” para 200 milhões de espectadores) e acompanhar a renegociação do contrato da banda com a EMI. Segundo o novo acordo, a banda deteria controle sobre as edições regionais de seus discos (notadamente as americanas), receberia um bônus de 2 milhões de dólares e seus direitos autorais subiriam para 9%.

Sem as obrigações das estafantes turnês, na prática eram os Beatles seus próprios empresários. Eles é que agendavam suas sessões em Abbey Road e agora pensavam em criar sua própria gravadora dentro da EMI. Brian estava certo de que seria demitido e, após o fim das turnês e da morte de seu pai no início do ano, entrou em profunda depressão. Em 28 de agosto de 1967, os Beatles estavam em Bangor (País de Gales) assistindo a uma série de palestras do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi sobre meditação transcendental. Foi lá que receberam a notícia de que seu empresário fora encontrado morto, por causa de uma overdose de Carbitol.

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