10.09.2009 às 13:09 - read the book, the only book
Beatles, Capítulo 2: A invenção do pop
Segunda parte do texto do pocket book "Beatles: Para Saber Mais" que eu escrevi em 2003.
Paul McCartney lembra que Brian Epstein “gostava de considerar-se um perfeito cavalheiro inglês”. Era de família judia rica, mas, em sendo gay (e em sendo o homossexualismo proibido na Inglaterra até 1967) levava uma vida bastante insegura e atormentada. Fora preso algumas vezes – sempre de alguma forma relacionada ao homossexualismo, sempre livrado pelos caros advogados dos Epstein. Entretanto, seu entusiasmo no negócio dos discos e seu faro para sucesso levaram a família a multiplicar por nove as lojas NEMS em cinco anos de sua gerência. Era respeitadíssimo em Liverpool, especialmente por pessoas ligadas à música. E, naturalmente, tinha ótimos contatos no mundo das gravadoras. Os Beatles aceitaram sua oferta.

Para que a banda progredisse profissionalmente, Brian previu um reempacotamento geral. Primeiro, sugeriu que abandonassem as roupas de couro e usassem ternos comuns – com cortes italianos, próximos do que os grupos “mod” trajavam na Inglaterra. Em segundo, que não fossem tão “desleixados” no palco – ou seja, que não aceitassem mais as bebidas que o público lhes pagava no meio dos shows, que não comessem nem fumassem durante as músicas, que não interrompessem o repertório para contar piadas ou brincar uns com os outros e que maneirassem nas longuíssimas jam-sesssions que cismavam de fazer vez por outra. Que decidissem o repertório antes de o show começar e que, ainda que enjoassem da música, não parassem de toca-la no meio da execução.

Com seus cabelos “exi”, com suas roupas novas, seu novo design de palco e um empresário respeitado, os Beatles imediatamente avançaram frente ao pelotão beat de Liverpool. A primeira atitude de Brian foi dizer a um representante da EMI que tanto a Decca quanto a Polydor estavam interessadas em contratar a banda. Ambas eram meias-verdades. A Polydor estava apenas lançando o compacto “My Bonnie” na Inglaterra, após insistentes pedidos de Epstein, mas nada sinalizava que o contrato alemão da banda, que expirava em junho, seria renovado. A Decca, por sua vez, havia apenas concordado em fazer uma audição com a banda, na noite de ano-novo de 1962 – após a qual o grupo foi preterido em favor de Brian Pole & the Tremeloes.

Apesar do balde-de-água-fria da Decca, o contrato entre Brian e o grupo foi firmado em janeiro de 1962 prevendo 25% dos lucros para o empresário – ou seja, mais do que cada beatle ganhava individualmente. Epstein aproveitou o teste da Decca para produzir alguns acetatos, que usava em negociações com outros selos. Em fevereiro, nos escritórios da loja HMV em Oxford Street, Londres, Brian encontrou-se com o diretor da EMI, Sid Coleman, que simpatizou com o que ouviu. Coleman prometeu um encontro entre Brian e o maestro George Martin, então diretor do selo Parlophone, uma divisão da EMI especializada em discos de humor. A Parlophone recém-recebera a incumbência de descobrir novos grupos pop.

Paralelamente às tentativas de contrato, além das já tradicionais apresentações quase diárias no Cavern Club, Brian lhes arranjava datas em toda região, em Southport, Manchester, Wallasay, Warrington e Doncaster. Conseguiu encaixar os Beatles no famoso programa radiofônico Teenager’s Turn, da BBC, onde tocaram três covers (“Dream Baby”, de Roy Orbison, “Memphis”, de Chuck Berry, e “Please mr. Postman”, das Marvelettes). Até o fim de 1962, se apresentariam mais duas vezes na rede, nos programas Here We Go e Saturday Club, desta vez mostrando também composições próprias, como “Ask me Why” e “Love me Do”. Rapidamente, os Beatles faziam fama como o principal grupo beat sem contrato do noroeste inglês.

Em abril, a banda voltou a Hamburgo para sua última temporada alemã (no Star-Club, que já recebera Jerry Lee Lewis, Little Richard e Fats Domino), no dia seguinte à morte de Stuart Sutcliffe, devido a uma hemorragia cerebral. Naturalmente, os shows da banda de então eram bem diferentes daqueles de um ano antes. Quando regressaram à Inglaterra, já estavam praticamente contratados pela Parlophone – num acordo leonino que lhes dava direito a um centavo por disco vendido, a ser dividido por cinco, durante quatro anos.

A primeira audição na EMI, em 6 de junho de 1962, nos estúdios em Abbey Road, começou tensa – George Martin, de fato, não se entusiasmou com o repertório apresentado (basicamente composições próprias executadas com compreensível nervosismo). Só simpatizou, de fato, com a banda, quando, em um intervalo das sessões, chamou os quatro para a sala de controle. Apontou alguns erros, explicou sobre os processos de gravação e sobre o que lhe preocupava. “Bem, é isso o que nós esperamos de artistas de gravação. Vocês têm algo a dizer?”, perguntou o maestro, então com 36 anos. Depois de alguns segundos de silêncio, George Harrison disse: “Tenho sim. Não gostei de sua gravata.” A sala explodiu em risadas e o bom relacionamente foi estabelecido.

Essa seria a única vez que Pete Best pisaria nos estúdios da EMI como um beatle. Para as sessões de gravação, agendadas para setembro, Martin sugeriu a Epstein um baterista profissional (uma prática comum naquele tempo). John, Paul e George aproveitaram a chance e confessaram ao empresário que gostariam de convidar seu velho amigo Ringo Starr para entrar para a banda. Nenhum dos três teve coragem de ligar para Best. Em 16 de agosto de 1962, Brian, por telefone, comunicou ao baterista que ele estava fora.

Os motivos para a crueldade – demitir um colega após dois anos de sacrifício logo após seu primeiro contrato – são nebulosos até hoje. Corria por Liverpool, entretanto, a história de que Brian Epstein era apaixonado por Pete e, com suas sucessivas negativas, resolveu “puni-lo”, sacando-o da banda. A relação entre Pete e os Beatles azedara também depois que Neil Aspinall (que morava com o baterista e servia de motorista para a banda, nos finais-de-semana) engravidou sua mãe. Como consolo, Epstein ofereceu a Pete uma vaga nos Merseybeats, outro de seus empresariados. Ele, claro, recusou, assim como recusou oferta semelhante de Rory Storm. Em 1968, após tocar no Lee Curtis & The All-Stars e formar o Pete Best Combo, Pete abandonou a carreira profissional.

O primeiro show de Ringo foi em Birkenhead, em 18 de agosto. Poucos dias depois, os Beatles entraram em estúdio para gravar seu primeiro single, Love me Do (com “P.S. I Love You” no Lado B, ambas composições próprias). Com uma alegada “forcinha” da NEMS, que teria comprado 10 mil peças do disco, Love me Do entrou no Top 20 inglês.

Epstein, ainda que inábil para redigir um contrato razoavelmente vantajoso para a banda, tinha um impressionante senso de oportunidade e, acima de tudo, gostava de artes – e os negócios ligados a ela só aguçavam sua criatividade. E, até por ser de Liverpool, os Beatles confiavam nele. Com o sucesso crescente, a banda criou uma barreira liverpooldiana em volta de si, em que só penetravam Brian, Neil Aspinall (um ex-contador convertido em “tour manager”) e Mal Evans (ex-porteiro do Cavern Club convertido em segurança, assistente de palco e secretário particular). E mantiveram sua cidade natal como uma espécie de parâmetro de dignidade ao longo dos primeiros tempos de carreira – por isso se recusaram a lançar uma balada ou uma cover em seus primeiros singles.

Por outro lado, eram ambiciosos. Paul e John queriam “ser os Goffin & King da Inglaterra”, segundo Lennon. Ainda que toda a banda tenha surgido influenciada pela primeira onda do rock’n’roll, os Beatles buscavam um apelo pop incomum para gente de sua classe social e idade. Eram fãs, por exemplo, de Phil Spector, compositor e produtor americano famoso como “manipulador”. Desde os tempos de banda de baile em Liverpool, quando precisavam destacar seu repertório (de covers) de outras atrações locais, bebiam em coisas obscuras como The Jordimars, Ritchie Barrett ou disparates como Peggy Lee. Sua atração por soul music americana levou-os, curiosamente a incluir em seus shows canções compostas para garotas, como “Soldier Boy”, “Please mr. Postman” e “Boys”. Perfeitamente encaixadas em seu repertório, músicas assim pareciam romper com o rock machista que se fazia até então. Eram músicas que, embora cantadas por um garoto, preservava o ponto-de-vista e a sensibilidade feminina. O rock, finalmente, chegava às garotas. E, como todo mundo sabe, onde há garotas, há muito mais garotos.

Os Beatles tinham uma preocupação legítima com a “embalagem” da banda. Por isso adotaram os penteados “exi” desde os tempos de Liverpool, por isso foram à loja de artigos de balé Anello & Davide encomendar botas com saltos cubanos (as “botas beatle” imitadas em todo mundo). Certamente por isso trocaram Pete Best (obviamente talentoso como músico) por Ringo Starr (obviamente um beatle de nascença). Por isso, vestiam-se e penteavam-se de forma parecida, iam aos mesmos lugares e falavam com o mesmo sotaque.

O segundo single, Please Please Me, foi editado pela Dick James Music Inc, porque James, um produtor e empresário do ramo musical, mediou uma execução da música no programa de TV Thank You Lucky Stars – o que ajudou o disco a chegar no topo da parada inglesa. Com o feito, dali a pouco, Brian e James estabeleceriam a Nothern Songs para administrar os direitos autorais das futuras composições de Paul e John. Em mais um de seus contratos estapafúrdios, os autores ficavam com apenas 20% cada um sobre os rendimentos (e sobre as decisões empresariais). Foi dessa forma, sem maioria de voto para os Beatles, que os direitos das canções da banda foram parar nas brancas mãos de Michael Jackson duas décadas depois.

De qualquer forma, a máquina-beatle começava a funcionar. Brian lhes arranjou uma turnê nacional – entre 2 de fevereiro e 3 de março de 1963, abrindo o show da estrela adolescente Helen Shapiro. Durante um intervalo de duas semanas, George Martin passou em revista todo o repertório dos shows da banda, escolheu 11 canções que foram gravadas em 583 minutos (!) de um único dia, sem almoço, sem lanche. A estas, somaram-se três faixas já lançadas em single (“Love me Do” foi regravada) e a Parlophone teve o primeiro LP dos Beatles, também chamado Please Please Me, também número um na parada nacional.

O álbum saiu em março, no meio de uma nova turnê conjunta encabeçada por Tommy Roe e Chris Montez. Um mês depois, entretanto, já havia um novo single da banda nas lojas: From me to You, que atingiu a sexta posição. A partir deste disco, os Beatles adotaram uma política bastante incomum. Seus álbuns (dois por ano, via de regra) teriam 14 músicas inéditas, porque, segundo John, eles queriam “oferecer ao comprador mais pelo mesmo preço”. Seus singles (três ou quatro por ano), em vez de extrair fonogramas do LP, trariam apenas músicas inéditas.

Nos meses seguintes, os Beatles participariam de uma nova turnê nacional coletiva e faria uma mini-tour pela Escócia. Em 13 de outubro de 1963, o grupo apareceu em rede nacional no programa Sunday Night at London Paladium, considerado, na época, o ponto culminante na carreira de um astro pop. A comoção foi tamanha que no dia seguinte, todos os jornais falavam em “beatlemania”, estampando fotos de centenas de garotas descabelando-se e enfrentando o rigor policial por causa do quarteto de Liverpool. O Daily Telegraph comparou o show aos comícios de Hitler em Nuremberg. A partir daí os Beatles, se tornaram o maior grupo da Grã-Bretanha e sua fama começava a se espalhar pela Europa – em seguida, eles tocariam e fariam promoção na Suíça e, depois, mais um grande teste local.

O programa anual beneficente The Royal Variety Show é uma instituição inglesa, com presença garantida da rainha e de toda família real e da fina-flor da sociedade britânica, todos vestidos de gala em trajes elegantes e caríssimos. O “medidor Liverpool de apego às origens” começou a soar para a banda: será que os Beatles estariam se deslumbrando com a alta roda? O que o grupo que tocava havia um ano exato no Star-Club de Hamburgo faria ao lado de Marlene Dietrich e Max Bygraves? Afinal, eles já estavam morando em Londres... A resposta veio na noite do espetáculo, após três canções. “Para o último número, eu gostaria de pedir a ajuda de vocês”, disse Lennon ao microfone, calmamente. “As pessoas nos assentos mais baratos podem bater palmas. O resto, basta chacoalhar as jóias.” O programa bateu recorde de audiência, com 26 milhões de espectadores – mais da metade da população da ilha.

O ano de 1963 terminou com um novo LP, With the Beatles (com novos clássicos como “All my Loving” e versões agressivas para pepitas da soul music americana, como “Please mr. Postman”, “Money (That’s What I Want)” e “You Really got a Hold on Me”), uma série própria de rádio transmitida pela BBC (Pop go the Beatles) mais dois singles de enorme sucesso (I Want to Hold Your Hand e She Loves You) e sua primeira turnê própria pela Inglaterra, incluindo uma data em Belfast, Irlanda. Constataram que a beatlemania não só se espalhara com a velocidade de uma transmissão televisiva, mas que estava fugindo do controle. Em Wimbledon, a banda precisou tocar protegida por uma cerca de arames retorcidos, para evitar a invasão do palco.

O próximo passo lógico seria tentar os Estados Unidos. Um promotor americano, Sid Bernstein, já havia ofertado 13000 dólares por duas apresentações da banda em Nova York, mas os Beatles tinham a idéia fixa de só pisar na América em condições de igualdade com os grupos de lá. Entretanto, a Capitol, representante da EMI no país, não se interessara em lançar os discos dos Beatles. Quem publicou os primeiros singles da banda foram duas gravadoras fundo-de-quintal, a Swan e a Vee-Jay, que não sentiram sequer o cheiro das paradas de sucesso. A Vee-Jay ainda lançou um LP, Introducing the Beatles, com repercussão velada.

Com o furor causado pela beatlemania na Europa ganhando proporções de fenômeno sociológico, as influentes revistas americanas Time, Newsweek e o jornal New York Times enviaram correspondentes para investigar. Falavam de todo a loucura que provocavam, dos ingressos que se esgotavam em horas e do roteirista galês que os acompanhava para escrever seu primeiro filme para cinema. Só então a Capitol percebeu o tesouro que tinha em baixo do nariz. Procurou Brian Epstein na Inglaterra a fim de renegociar os direitos fonográficos dos Beatles que, até então, pertenciam a Vee-Jay. Brian notou seu poder de barganha e pediu garantia de divulgação maciça em rádio, imprensa e TV – num total mínimo de 70 mil dólares dispensados para a promoção da banda na América. O primeiro disco dos Beatles pela autodenominada “maior organização fonográfica do mundo” foi o single I Want to Hold Your Hand (com “I Saw Her Standing There” no Lado B). Em janeiro de 1964, durante uma temporada em Paris gravando, fazendo divulgação e se apresentando, os Beatles receberam a notícia: estavam no topo da parada americana.

Foi uma rara confluência de sorte, senso de oportunidade e trabalho estratégico. Brian havia acertado uma temporada promocional dos Beatles na América incluindo três apresentações no Ed Sullivan Show (um Sílvio Santos com maior poder de influência e transmissão costa-a-costa), um show no ginásio Washington Coliseum com capacidade para 8 mil pessoas a ser transmitido pela CBS e duas datas no Carnegie Hall de Nova York (“para dar prestígio”). A Capitol usou seus 70 mil dólares na ação “The Beatles are Coming!” (um trocadilho com o grito “the brits are coming!” do tenente Paul Revere que deu início à independência dos Estados Unidos). Foram feitos pôsteres, out-doors, displays em lojas, discos de entrevistas e ações com DJs influentes como Murray the K. O primeiro LP pela Capitol, Meet the Beatles!, era uma compilação de canções dos álbuns ingleses e de vários singles. Os americanos preferiam uma ação de marketing mais prática e efetiva: nada de 14 canções por LP, nem de singles com faixas inéditas. Nos Estados Unidos, a “atitude” de Liverpool seria substituída pelo pragmatismo do mercado.

Quando desembarcaram em Nova York, em 7 de fevereiro de 1964, os Beatles encontraram uma América a procura de novos paradigmas. Seu presidente John Kennedy fora brutalmente assassinado em rede nacional havia pouco mais de dois meses. Kennedy era católico, excelente no marketing pessoal, simpatizante da coexistência pacífica com países comunistas e simbolizava uma era idílica que foi encarnada com perfeição nas canções ensolaradas e harmônicas dos Beach Boys ou na perfeição pop dos artistas da Motown. Este sonho ingênuo foi esmigalhado com um tiro. Os Beatles eram a maior novidade que o povo americano poderia querer. Eram tão pop quanto as Shirelles, mas tinham controle sobre o processo artístico, tocavam seus próprios instrumentos e compunham suas canções. Eram quatro elvis presleys, mas tinham um senso de humor cruel que jamais os permitiria passar as entrevistas chamando os repórteres de “senhora” ou “senhor”. Enquanto se apresentavam no Ed Sullivan Show (a maior audiência da história da televisão), em 9 de fevereiro, seus seis singles americanos estavam no Hot 100 da Billboard. Meet the Beatles já caminhava para 4 milhões de exemplares vendidos e a beatlemanía se multiplicara na América proporcionalmente ao poder e dinheiro de sua publicidade – e dali para todos os países do ocidente com igual força.

Ajudou a impulsionar ainda mais a febre o longa-metragem que a United Artists produziu com a banda logo após sua volta à Inglaterra. A produtora havia procurado Brian Epstein ainda em 1963, de olho na trilha sonora – o que agradou a banda, que já havia recusado propostas cinematográficas que não lhes davam autonomia sobre a música. Embora ganhassem apenas 7,5% dos lucros, contra o padrão de 25% (mais uma trapalhada numérica de Epstein). O filme turbinou o sucesso. Seria se como, várias vezes por dia, os Beatles estivessem se apresentando, simultaneamente, em todas as cidades do mundo. Rodado em elegante preto-e-branco, A Hard Day’s Night foi o primeiro filme da história a gerar lucro antes mesmo de estrear. Ávida pela trilha-sonora, a United Artists colocou o LP à venda dez dias antes da premiére. Quando a película foi lançada, com calorosa recepção também da crítica, o disco já havia vendido mais de 2 milhões de exemplares.

Enquanto A Hard Day’s Night seguia em “turnê” mundial, os Beatles voltariam à estrada. Até o fim de 1964, eles fariam nova excursão pela Suécia, sairiam em seu primeiro giro mundial (com datas na Dinamarca, Hong Kong, Austrália e Nova Zelândia), voltaram aos Estados Unidos para uma turnê completa (32 shows, 34 dias, 24 cidades, incluindo três datas no Canadá), encerraram o ano com mais um LP (Beatles for Sale) e novos shows pela Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales).

O show dos Beatles, para teatros, grandes casas de eventos e ginásios, tinha uma estrutura concisa e prática. Naquela época, a maior parte dos concertos tinha uma série de números de abertura, o que fazia com que a banda principal não tocasse mais de meia-hora. Em teatros, normalmente, os Beatles faziam sessão vespertina e noturna. O repertório era geralmente ancorado em dois ou três números rápidos para levantar a platéia (“Twist and Shout” e “Long Tall Sally” eram obrigatórios), um número vocal para George, outro para Ringo e o restante, basicamente os singles que estivessem lançando por aquela época, divididos igualmente entre os cantados por John e Paul – o segundo era o mestre-de-cerimônias.

A equipe de palco se resumia a Mal Evans e Neil Aspinall. Não tinham mesa de som, não tinham sistema de retorno e seus amplificadores Vox de 30 watts (insuficientes ara sonorizar uma quermesse de escola) eram ligados diretamente nos auto-falantes dos ginásios. Segundo George Martin (que tentou registrar um show da banda na Califórnia para um eventual disco ao vivo), a gritaria era tamanha e tão contínua que seria o mesmo que ligar um rádio ao lado de um avião a jato. O herói dessas turnês era Ringo, que conseguia manter o ritmo durante meia-hora apenas “olhando para três traseiros e tentando descobrir em que parte da música a banda estava”.

O primeiro show nova-iorquino da turnê americana de 1964 foi no ginásio de tênis do Forest Hills, para 16 mil pessoas. Depois do concerto, voltaram para uma festa nas suítes do Hotel Delmonico. Os Beatles já conheciam tais eventos, sempre cheios de figurões do showbiz como Dean Martin, Grouxo Marx, Jim Barry, gente da gravadora, de rádios, jornalistas e tietes. Al Aronwitz, do New York Post, havia se comprometido com a banda de convencer Bob Dylan a dar um pulo no Delmonico. Aronwitz era próximo dos poetas beat, do jazz e do folk, ele próprio introduzira Dylan à maconha. Naquela noite, foi a vez de Dylan introduzir os Beatles à erva. Por hiperbólico que pareça, o encontro mudaria a carreira de Dylan, dos Beatles e o curso da música pop mundial.

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