“O filhinho de papai bobinho de cabelos compridos que cantava músicas bobinhas para as menininhas”. É assim, acidamente, que o próprio Ronnie Von se refere à visão clichezada sobre sua imagem, a do dândi carioca de longos cabelos lisos, olhos verdes e repertórios risível, de bobagens como “A Praça” e versões de sucessos internacionais. O que pouca gente sabe – e o que nem o cantor faz muita questão de lembrar – é que, entre 1968 e 1970, o “pequeno príncipe” jogou tudo isso pro alto e tentou subverter seu destino de ídolo adolescente gravando três álbuns absolutamente radicais, que misturavam psicodelia, tropicalismo, acid rock, música de câmara, pré-progressivo e pop de AM. Três trabalhos instigantes, produzidos à margem da tropicália e anos luz à frente do próprio movimento em termos de sintonia com a vanguarda musical da época.
Curiosamente, tal fase “muito louca” é reflexo direto do passado de “armação” do cantor – algo que sempre o incomodou. Ronnie era um filho de uma abastada família carioca e, na adolescência, ainda estudante, tornou-se amigo dos Brazilian Bitles, uma banda ‘cover’ que abastecia seu repertório com os LPs e singles que o pai de Ronnie, diplomata, trazia de Londres no ato dos lançamentos. Durante um show, os ‘bitles brasileiros’ chamaram o tímido jovem de olhos verdes para o palco e ele saiu de lá com um convite da Polydor para que gravasse seu primeiro compacto. Escolheu “Girl” uma faixa do “Rubber Soul” (1965), LP dos Beatles ainda inédito no Brasil, vertida para o português por sugestão da gravadora. A canção virou “Meu Bem”, um dos singles mais vendidos e executados no ano. Ronnie gravou seu primeiro LP, novo sucesso de massa, ganhou um programa na poderosa TV Record, “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, e se transformou, da noite para o dia, na mais séria ameaça ao reinado jovemguardista de Roberto Carlos.
“Eu tinha problemas existenciais sérios”, lembra o cantor, 35 anos depois. “Com o sucesso popular, meus amigos cariocas, da ‘esquerda escocesa’, que discutiam os problemas do mundo bebendo uísque 12 anos, viraram a cara pra mim. E minha família, horrorizada, dizia que eu ia jogar meu sobrenome no lixo. Eu tinha um objetivo musical claro, que era falar para o povo, para as pessoas de verdade. Tinha um sonho que era levar musicalmente uma mescla de música erudita, um pouco jazzistica com música pop, que era o que eu ouvia.”
Claro que os espertalhões da indústria do disco tinham outros planos para seu menino bonito. “Eu nunca tive alguém que me orientasse artisticamente, apenas corretores que só visavam o lucro”, assume o cantor. “Eu tinha as idéias, mas não era capaz de executá-las. Os executivos das gravadoras apenas colaboravam com exigências comerciais, ‘grava isso que vai vender mais’, a ponto de eu acabar lançando uma marcha-rancho sem pé nem cabeça em meu segundo LP”, conta, se referindo à nostálgica “A Praça”, gravada em 1966.
Entretanto, a história começou a virar no ano seguinte – o ano de “Sgt. Pepper”, Syd Barrett, “Smile” e do Festival de Monterey. Enquanto seus “rivais” da jovem guarda ainda faziam versões de sucessos internacionais com letras pueris, Ronnie Von descobriu a gênese do que viria a ser o movimento tropicalista. Afinal, os Mutantes eram atração constante de seu programa e a interação com Caetano, Gil e Beat Boys era grande. “Ainda não havia o tropicalismo como movimento, mas eu era afetivamente muito unido com todos eles”, lembra Ronnie. “Havia uma visão no ar, começando junto, estávamos na mesma gravadora, éramos todos ligados”. O ídolo pop aproveitou os ventos de mudança para lançar um disco de capa dupla, produzido pelo mesmo Manoel Barenbein que produziria Caetano, Gil e correlatos, arranjado pelo Rogério Duprat e com os próprios Mutantes tocando em oito faixas. “Foi o maior fracasso da história da minha vida”, diz, enfatizando cada sílaba. “Não da minha carreira, da minha vida. Foi minha ruína emocional”.
Apesar do sucesso “Pra Chatear”, o disco (chamado “
“Ronnie Von 3””) chocou o público e, logo após o lançamento, começou a ser devolvido à gravadora. “Acho que passamos mesmo dos limites” admite Barenbein. “Os fãs, e principalmente os lojistas, ouviram uma das músicas, ‘Meu Mundo Azul’, em que nós gravamos os vocais de Ronnie processados num amplificador de guitarra. A voz foi registrada toda entrecortada, nós adoramos, mas depois os compradores iam às lojas reclamando, pensando que se tratava de um defeito no disco”.
Foi em meio ao gosto do fracasso, a responsabilidade do sucesso e a insatisfação musical que o cantor criou
”Ronnie Von” (1968), o primeiro de seus discos totalmente “psicodélicos”. O cantor cortou os cabelos como que num ato de desagravo, juntou-se a Arnaldo Sacomanni (na época assistente de produção de Barenbein) e ao maestro tropicalista Damiano Cozzela, responsável por diversos arranjos do álbum de estréia de Caetano Veloso. “Esse disco é fruto de um sentimento misto de medo e vingança”, revela o artista. “Foi um trabalho de desabafo pessoal, eu estava de saco cheio daquilo tudo, uma tentativa desesperada de fazer algo que pelo menos agradasse a mim. Foi o único disco de toda a minha carreira em que eu tive controle total”.
ANÁRQUICO E REFINADO - O disco era impressionante como exercício de ousadia e liberdade artística. Na capa, uma foto de apelo erótico de Ronnie de torso nu, sob iluminação infra-vermelha, emoldurado em uma pintura psicodélica de araque. O disco, agressivo e enfático, abre com as faixas “Meu Novo Cantar” e “Chega de Tudo”, segue uma balada elizabetana de letra surrealista, “Espelhos Quebrados”, um rock hendrixiano de guitarras turbinadas (“Sílvia 20 Horas Domingo”). Entre as duas últimas, um jingle fictício de um certo “Bar Íris”, tal qual o The Who fizera poucos meses antes no ambicioso e irônico “Sells Out”. Tanto aqui quanto lá, o jingle no disco serve como uma crítica à industrialização da arte – sendo Ronnie ainda mais credenciado, uma vez ele próprio um produto da indústria do disco se rebelando contra a máquina.
Escorado pelo vigoroso instrumental do grupo portenho-argentino The Beat Boys e vários músicos de estúdio, o disco abre espaço para vinhetas, efeitos mil, além do repertório que comporta uma suíte sem nome reunindo “Nada de Novo” e o dramalhão irônico “Lábios Que Beijei”, uma balada soul à Procol Harum (“Esperança de Cantar”), ufologia wetern (“Mil Novecentos e Tal”) e até um inacreditável telefonema (!?) de Cozzela para o estúdio Scatenna buscando descobrir a opinião de Ronnie sobre a moda (!?!?). Um disco anárquico, refinado, inteligente, cheio de segredos e detalhes, do tipo que costumamos chamar de clássico.
“Este LP era o começo do que eu tinha como meu objetivo” revela Ronnie. “Eu imaginava que as pessoas de quem eu ambicionava o respeito iriam notá-lo e prestar atenção no que eu estava querendo dizer. Era a pancada inicial, o choque, para chamar a atenção para mim e, a partir daí, levar uma mensagem.” Uma recepção inicialmente interessada da imprensa não foi suficiente para que o cantor pudesse dar seqüência a seu plano de liberdade artística. “No programa ‘Flávio Cavalcanti’, disseram que eu estava jogando dinheiro da gravadora no lixo que eu deveria voltar aos temas românticos. Aí o novo diretor da Polydor, André Midani, me disse que com radicalismos eu não chegaria a lugar algum, que o ideal seria distribuir ‘pílulas’ entre meu repertório, que eu poderia fazer meu disco seguinte ao lado de Cozzela, mas que seria bom incluir algumas versões de sucessos estrangeiros, de novo.”
Apesar das “intervenções”, o álbum de 1969 ainda guardava muito da ousadia de seu antecessor, a começar pelo título:
A Misteriosa Luta do Reino do Parassempre Contra o Reino do Nuncamais. É praticamente um disco de rock progressivo, com arranjos complexos, delicados, uma banda afiadíssima (Beat Boys, de novo) e canções inspiradíssimas como a ótima “De Como Meu herói Flash Gordon Irá Levar-Me De Volta a Alfa do Centauro, Meu Verdadeiro Lar”, a bossa-lounge “Dindi” e até uma versão (olha ela aí!) de Ronnie e Rita Lee para “Atlantis”, de Donovan, que virou “Atlântida”. “Este LP ainda traz muito do espírito rebelde”, confirma Ronnie. “Mas eu já estava me sentindo patrulhado por parte da gravadora.”
BRILHO RECUPERADO - O trabalho seguinte,
A Máquina Voadora, foi o último esforço do artista para manter-se na vanguarda. Apesar do resultado desigual entre as canções, o disco trouxe um novo hit, “Viva o Chope Escuro” e uma sonoridade cada vez mais interativa entre os arranjos de Cozzela, as idéias de Ronnie e a execução dos Beat Boys. Infelizmente, as idéias ousadas do LP de 1968 foram se diluindo em pressões comerciais. No final das gravações, Ronnie virou-se para Cozzela e assumiu o desânimo e o cansaso. “À partir daí, meus discos começaram a sair para cumprir contratos”, admite. “Me sinto triste até hoje por nunca haver levado meus projetos adiante. Puxa vida, eu tinha tanto para mostrar, tantas idéias interessantes. Mas não me deixaram.”
No entanto, o brilho intenso da criatividade de Ronnie está, aos poucos, sendo redescoberto por várias bandas atuais. O Vídeo Hits regravou “Sílvia: 20 Horas, Domingo” em seu CD de estréia. O Ira! incluiu “Salve Gente Amiga” no elogiado disco “Isso é Amor”. Mas isso não aplaca o sentimento de dever não cumprido do cantor. “Eu fico muito triste quando abro o jornal para ler alguma matéria sobre jovem guarda e meu nome não é citado”, confessa Ronnie. “Eu gravei com todos os tropicalistas, mas eu também não sou tropicalista. Eu não sou coisa nenhuma, mas eu gostaria de ser. Eu gostaria que as pessoas se lembrassem que eu fiz parte de alguma coisa, de um momento cultural de transformações culturais profundas no Brasil e no mundo”, assume, antes de arrematar, cabisbaixo: “Sou uma pessoa esquecida musicalmente, me ressinto muito por conta disso”.