24.03.2008 às 22:55 - arquivos
Grateful Dead - American Beauty
Uma das três "Discotecas Básicas" que escrevi para a Bizz. Esta é de janeiro de 2007.
Grateful Dead - American Beauty

Produzido: pelo Grateful Dead

Lançado: em novembro de 1970 pela Warner americana, ganhou em 2004 uma reedição em dualdisc. No Brasil, o que resta aos fãs é o DVD Anthem to Beauty (ST2), que documenta as gravações do álbum, que nunca saiu por aqui.


Box of Rain/ Friend of the Devil/ Sugar Magnolia/ Operator/ Candyman/ Ripple/ Brokedown Palace/ Till the Morning Comes/ Attics of My Life/ Truckin’

Numa dessas distorções de percepção histórica (não muito difíceis de explicar), o Grateful Dead virou uma espécie de piada riponga, dos shows masturbatórios sem fim, dos fãs ridículos e obcecados em suas camisetas tie-dye apertando as panças, das figuras folclóricas e abobalhadas como Jerry Garcia e Pigpen, da casa vitoriana que virou comuna hippie em Haight-Ashbury e da absoluta falta de conexão disso tudo com o mundo real. Bem, não sou eu que vou te convencer do contrário em parcos 3 mil caracteres, mas vale o registro de que, num intrincado casamento de casualidades, esse sexteto californiano perpetrou um dos mais belos, sensíveis e subestimados clássicos do rock dos anos 60, American Beauty.

Era o sexto disco da banda em três anos, no buraco que se abriu entre a fase de espanto causado por aquela draga psicodélica que misturava rhythm’n’blues e country com dodecafonia e aditivos variados nos acid tests da vida (1967/1970) e a fase de caricatura “toca raul”, que durou até o fim da banda, em 1995. O negócio é que, logo no início, o Dead subverteu a regra de trabalho da época, que era centrada na gravação de discos. O forte do grupo eram os shows – dá pra ver pela discografia inicial, que coalhava álbuns ao vivo eletrizantes com discos de estúdio frustrantes. O executivo da Warner Records, Joe Smith, lembra, apavorado, que os músicos “ficavam chapados um tempão, vivendo num mundo de fantasia procurando sons impossíveis” durante as gravações. Não é de espantar que a mitologia da banda em cima do palco crescesse proporcionalmente a seu descontentamento em estúdio. (Dessa fase, entretanto, vá sem medo ao assustador e complicado Anthem of the Sun, de 1968.)

Acontece que a mesma mitologia lisérgica e desregrada que a banda ajudou a cristalizar chegava à década de 70 retorcida, fraturada, doente, ressentida. A tragédia de Altamont já havia virado a página da era dos festivais, Jimi e Janis já estavam mortos e, afinal, o “palácio da sabedoria” encontrado ao final do caminho do excesso não era lá tão deslumbrante assim. Bob Dylan e a The Band desmontaram a fase da psicodelia gritante multicor na base da simplicidade e doçura – dando o norte para Crosby, Stills & Nash, os Byrds de Gram Parsons, Neil Young, James Taylor, os Beatles do Álbum Branco etc.

Sentados num contrato de nove (!) discos e liberdade absoluta no estúdio, o Dead estava longe de honrar as expectativas da Warner (não à toa, American Beauty foi seu último disco de estúdio pela multinacional). No meio da trajetória esquisitona e de um ambiente revolto no pop planenário, a banda também vivia uma fase de amadurecimento forçado. O pai do baixista Phil Leash havia morrido recentemente e a mãe do guitarrista Jerry Garcia estava agonizando depois de um acidente de carro. Ao mesmo tempo, o tecladista Tom Constanten deixara o grupo e o percussionista Pigpen entrava na reta final de sua humilhante briga contra o alcoolismo, perdida em março de 1973.

Esse clima de prostração e reconhecimento seria sentido em cada acorde de American Beauty. O guitarrista Bob Weir lembra disso como “tirar as roupas de astronauta e voltar à Terra vestindo jardineiras”. Há muito de fixações espirituais emolduradas por violões, banjos e letras que falam de morte e passagem do tempo. Às vezes quase religioso (“Há uma fonte que não foi feita por mãos de homens”, em “Ripple”), às vezes raivoso (“Candyman”), às vezes buscando a simples transcendência, (“Quando não havia ouvido algum para ouvir, você cantou para mim”, em “Attics of My Life”), o disco possui harmonias vocais que derramam uma beleza plácida que caminha entre folk, rhythm’n’blues, country, southern gospel, bluegrass e pop americano. Nada de solos, experimentos, ruídos lisérgicos, papos surrealistas. Apenas maravilhosas canções em arranjos acústicos e o choque entre o sonho e a realidade – note como “american beauty”, na capa do disco, pode ser lido como “american reality” também.

Não demorou muito, o Dead estaria de volta às turnês monstruosas e aos shows de 6 horas, dando munição aos preconceituosos. De tal forma que nem a recente onda alt-country ajudou a sagrar American Beauty como um dos álbuns básicos da virada dos anos 60 para os 70. Surpreenda-se, então.

Comentários
16.10.2009 às 0:16 - Kabeabenawmub
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16.07.2009 às 15:54 - famsswows
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