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18.06.2008 às 18:53 - 159 Musics
159 Musics #4 : "Old Souls"
Da trilha sonora do filme "O Fantasma do Paraíso", de Brian de Palma, de 1974. A (ótima) trilha é do grande tampinha Paul Williams, e "Old Souls" é cantada pela atriz Jessica Harper, que depois foi fazer livros e discos infantis.
O filme é uma versão rock do mito de Fausto misturado a "Fantasma da Ópera". Jessica Harper interpreta Phoenix, o grande amor do "Fantasma" do filme. 04.06.2008 às 17:21 - Correspondência
Esse papo de paulinismo
Meu querido primo Edimilson, grande amigo, meu professor de heavy metal (hahaha), está fazendo mais uma faculdade, de História, e seu trabalho de conclusão de curso é sobre o papel de Paulo de Tarso como grande arquiteto do cristianismo.
Como o Edi não é cristão, sei que o que ele pensa sobre o assunto é mais ou menos o que os críticos chamam, pejorativamente de "paulinismo": a idéia de que foi Paulo que "inventou" a igreja cristã como a conhecemos hoje, diluindo os ensinamentos de Cristo num formato palatável aos não-judeus. Segundo eles, o que vivemos hoje seria mais um "paulinismo" do que um cristianismo. Revistas como a Superinteressante e a Galileu, inclusive, já ciscaram por esse tema. Edi me pediu para ajuda-lo a entender como os cristãos entendem o papel de Paulo. Demorei um pouco, porque não encontrei nenhum estudo específico sobre isso, então pesquisei tudo sozinho. Apesar de um certo desânimo com o que considero uma polêmica vazia, resolvi dividir aqui também com vocês, porque vejo esse assunto nas capas de grandes revistas e porque me lembro do famoso "debate evangélico" que o músico Hansen, do grupo Harry, detonou no Orkut há coisa de um ano e pouco, envolvendo este que vos digita (quem souber a url disso, por favor deixe lá nos comentários). Ficou bem cheio de citações bíblicas, mas acho que era para ser assim mesmo. Enfim, o que escrevi foi o seguinte: ![]() Primeiro, desculpe pela demora em te responder. Mas preciso confessar que esse papo todo de “paulinismo” (assim como toda a guerrinha criacionismo-versus-evolucionismo) me motivam muito, muito pouco. Porque não me parece coisa de quem esteja em busca da verdade, mas apenas uma vaidosa batalha de argumentos. Como minha fé é algo que valorizo, não me sinto muito bem a usando assim, em algo tão estéril. Acho que a maior parte dos cristãos concorda comigo, porque não achei um único livro que “respondesse” às “acusações” levantadas nesse tema, o “paulinismo”. Que não são nem acusações de fato: tudo gira em torno de uma pergunta sem solução: Como os cristãos podem provar que Paulo teve mesmo um encontro com Jesus Cristo e que todo o seu trabalho estava conforme os planos de Deus? Resposta: não provamos que sim. Mas também ninguém pode provar que não. Daí minha preguiça extrema com essa “polímica”. O ponto é assim: ou você acredita que a Bíblia é a Palavra de Deus, o único e perfeito veículo pelo qual Ele escolheu se fazer conhecer e se preservar, ou não acredita. Ou você acredita que Deus está no controle dos acontecimentos e que Ele determina o andar das coisas, ou não acredita. Parece simples e grosso, porque é simples e grosso mesmo. Mas como foi você que pediu, fiz um arrazoado de pontos sobre o assunto, sob a perspectiva cristã. Vamos lá. Registro Histórico : Não é verdade que não haja registro histórico formal do trabalho de Jesus Cristo. Flávio Josefo registrava a história do povo hebreu e fala de Cristo, dando especial destaque a seus milagres. Já a história da igreja primitiva está toda registrada naquele livro ”História Eclesiástica”, de Eusébio de Cesaréia (que é bem catolicão, mas vale por trazer diversos registros históricos do ministério de Jesus). Quanto a Paulo, seu trabalho foi documentado não apenas por Eusébio, mas também por Tertuliano. Só que Tertuliano, sabemos todos, era eclesiástico, não historiador. Entretanto, eu já li dois livrinhos muito interessantes, meio “biografias” de Paulo: ”O Livro de Paulo”, de Walter Wangerin, e o volume sobre ele na série ”Heróis da Fé”, de Charles Swindoll, muito bem escritos e que dão conta perfeitamente da perspectiva cristã do trabalho dele. Jesus “vs” Paulo : A corrente anti-paulina é baseada na idéia de que os Evangelhos são mais “verdadeiros” do que as cartas ou o livro de Atos dos Apóstolos. E de que o ministério de Jesus estiveram sob controle mais austero de Deus do que o de Paulo. Desculpe, mas não temos esse direito. Toda a Bíblia é a Palavra de Deus e todos os movimentos de expansão do cristianismo estavam sob controle de Deus. Não creio que tenhamos esse direito – que, afinal, me soa como covardia: Acho mais corajoso declarar logo que a Bíblia é algo tão digno de confiança quanto, digamos, O Senhor dos Anéis, ou que Jesus, Papai Noel, Paulo de Tarso e Bilbo Bolseiro estão todos no mesmo balaio de criação ficcional ou mitologia moderna. Ou isso ou você ajoelha e se converte neste mesmo instante. (É por isso que acho que seu trabalho corre o risco de versar sobre uma polêmica vazia). Se eu entendo que Deus está no controle de tudo, do big bang à morte dos dinossauros, das eras glaciais à eleição do Gordon Brown, então eu não vou discutir porque Ele preferiu que Paulo, e não Pedro ou o próprio Jesus, tenha sido o responsável pela divulgação do cristianismo pelo mundo. Foi a vontade suprema dEle, ponto. Jesus não batizava seus discípulos (João 4). João Batista, enquanto viveu, foi mais famoso do que o próprio Cristo que anunciava (João 3:30). Jesus só pregou em uma grande cidade (Jerusalém) no último movimento de seu ministério. Por que? Não sei. Só sei que faz todo o sentido que seu nome tenha crescido proporcionalmente durante os três anos antes da crucificação, e continuado a crescer depois. Achar que Paulo é que foi o responsável por isso, sem que isso fizesse parte do plano de Deus, é o mesmo que esperar que um único homem, um gênio do marketing qualquer, transforme Inri Cristo em algo mais do que um biruta que se acha Deus na Terra. A autoridade de Paulo : Essa idéia de que Paulo não tinha “autoridade” para falar em nome de Cristo, porque ele não foi um dos 12 apóstolos escolhidos por Cristo no início de seu ministério, é muito anterior ao filme do Scorsese. O começo do livro de Gálatas é todo dedicado a responder essa crítica. Evidentemente, mais uma vez, Paulo se vale da fé: ele SABE quem o delegou esse trabalho, simplesmente isso. Mas, em determinado momento, ele conta coisas que são interessantes para os que precisam de provas históricas como você: quando Paulo foi até Jerusalém para falar com os discípulos originais de Cristo, foi recebido pelos líderes da igreja de lá (Tiago, Pedro e João) como um igual. Tito estava com ele e foi bem recebido, embora não fosse circuncidado (Gálatas 2:3). Embora tivessem divergências famosas (Gálatas 2:11), Pedro não tinha dúvidas de considerar as cartas de Paulo como escritura sagrada (2 Pedro 3:15 a 17). E, claro, Pedro era um dos 12 apóstolos, e um dos líderes da igreja primitiva, e responsável pela pregação entre judeus. Cristianismo para não-judeus : Espero que esteja evidente que entendo que, na minha visão de cristão, o espalhamento do cristianismo foi algo arquitetado por Deus. Jesus já havia deixado muito claro que a lei judaica era uma preparação para o que viria depois dela (veja lá em João 4, o episódio com a mulher samaritana, só para ficar em uma passagem famosa). (Paulo escreve sobre a função da lei em Gálatas 3:21 a 29). Jesus ainda ordenou que seu nome fosse propagado “tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra” (Atos 1:8). Acho graça quando dizem que Paulo “distorceu” as palavras de Cristo e que “sem Paulo, o cristianismo seria só mais uma seita judaica”. Veja: Paulo foi criado fariseu (Atos 26:5), a ramificação mais fundamentalista entre os hebreus, conhecida pelo zelo doentio à Palavra. Se houve alguém incapaz de distorcer algo, era Paulo. O que aconteceu é que ele entendeu, baseado na Bíblia, que o Messias previsto havia séculos era Jesus Cristo, e que a sua mensagem veio para todo o mundo, não só o povo judeu. Eu também entendo assim, mas, outra vez, isso é uma questão de fé. Não foi Paulo que inventou isso. Estevão, apóstolo, era incumbido de evangelizar não-judeus (Atos 7). Pedro viu o Espírito Santo descer sobre não-judeus (Atos 10:44). Paulo levou Tito para conhecer os cristãos de Jerusalém e Tito não foi obrigado a circunsidar-se.(Gálatas 2:3). Pedro esteve na Síria e conviveu normalmente com não-judeus cristãos (Gálatas 2:11). Na verdade, todos os cabeças da igreja de Jerusalém (apóstolos incluídos) decidiram que Paulo e Barnabé iriam evangelizar não-judeus, enquanto Pedro evangelizariam judeus. E todos pregavam um único evangelho. Acho que os pontos são esses. Espero que você se lembre desses argumentos na hora de dar o tom a seus trabalhos – creio que, considerando tudo isso, ele só pode ficar mais forte. Tenho para mim que a busca sincera pela verdade, acaba levando à verdade realmente. Abraço, Ricardo 30.05.2008 às 14:34 - 159 Musics
159 Musics #3 : "A Técnica do Baixo Elétrico"
Faixa do disco Ao Vivo da Graforréia Xilarmônica, gravado num desses shows de reunião do trio gaúcho. Tem participação do Marcelo Birk na guitarra. Birk fundou a banda junto com Frank Jorge, Carlo Pianta e seu irmão Alexandre Birk, mas não gravou nenhum dos dois álbuns de estúdio do grupo. O guitarrista tem um álbum solo pronto, "Timbres Não Mentem Jamais". Essa "A Técnica do Baixo Elétrico" me fez lembrar o quanto essa banda era genial.
21.05.2008 às 12:58 - tevê
Coffee Break #5
Edição de 01/11/2007.
19.05.2008 às 12:37 - Discoteca MTV
Skank aposta na verve brasuca
Dia 26 próximo estréia a nova temporada do "Discoteca MTV", série de documentários sobre grandes discos da história do pop brasileiro. Ano passado, eu dei depoimentos sobre "Revoluções por Minuto", do RPM, e sobre o primeiro dos Mutantes. Este ano, da lista de discos que a MTV me propôs, imaginei ter o que falar sobre "O Samba Poconé", terceiro e mais conhecido álbum do Skank. Apesar de reconhecer que "O Samba Poconé" é mesmo melhor, meu disco favorito do Skank é "Calango", de 1994. Daí que eu me lembrei de uma história curiosa sobre "Calango".
Em 1994, eu trabalhava no "Estadão" e fazia freelances para a "General", uma revista alternativa de vida curta dirigida pelo André Forastieri e pelo Rogério de Campos. Numa visita à redação da "General", vi na mesa do André uma fitinha cassete anotada "ADVANCE - SKANK" na capa. Perguntei o que significava aquilo e ele me explicou simplesmente que era o "novo do Skank". Eu já conhecia o Skank por causa do hit "O Homem Q Sabia Demais" que tocava bastante no rádio, e já havia escrito sobre a banda nos tempos do "Jornal de Jundiaí" - mas confesso que 80% da minha simpatia era porque a "Bizz" mandava gostar. Mas pedi a fitinha para o André e ele me deu. Ouvindo no carro, fiquei impressionado com o disco, e sugeri aos meus editores no jornal. Na época, novinho, eu não fazia idéia de que os jornais tivessem de respeitar embargos de advances para publicação (a gravadora mandava fitas cassete para as revistas mensais, que demoram mais para fechar, e só depois enviavam o disco para jornais diários, para que todo mundo publicasse mais ou menos no mesmo tempo). De posse de uma fita emprestada, eu falei de "Calango" antes de qualquer outro veículo, em outubro de 1994. Como o espaço era generoso (mais por causa do tamanho da foto do que pelo tamanho do texto), a banda leu. Como o Skank era uma banda nova, ninguém reclamou, e logo e a gente se conheceu e trocamos muitas figurinhas até hoje. No momento, o Skank está gravando seu nono disco de estúdio, produzido pelo mesmo Dudu Marote de "Calango". Pelo que Samuel me disse, vem aí um disco menos taciturno, com mais groove do que os anteriores, mais intervenções eletrônicas, ainda que nem de perto eles cogitem um álbum de reggae. Outra novidade é que, pela primeira vez, os quatro estão compondo juntos, no estúdio. Mas deixe-me voltar ao assunto, o velho textinho sobre "Calango", de outubro de 1994: ![]() Bem, você já deve ter se deparado com o novo hit do Skank, aquela cover de “É Proibido Fumar” que será incluída no disco-tributo ao Robertão, e que é igualzinha a “Boom-Shak-A-Lack” do Apache Indian. Pois saiba que esta música está no novo disco do grupo, “Calango” (Chaos/Sony), e que esse disco é fulminantemente superior ao primeiro. Só não é o melhor disco nacional do ano porque o Mundo Livre S/A chegou lá primeiro. Mas saiba também que “Calango” tem um monte de outros hits em potencial, que a grande maioria das faixas são pegajosas feito piche e que, independentemente da atual modinha da tosqueira sonora, o CD é pop até o osso. Uma das coisas mais legais que nesse novo trabalho, o Skank resolveu apostar ainda mais em sua verve brasuca, misturando pra valer baião com ska e xaxado com dancehall em faixas como “Amolação”, “Estivador” e “Pacato Cidadão”. Tem também a simpatia de “Jackie Tequila” (e seu aderente riff assobiado) e “O Beijo e a Reza”. Agora, no quesito “sucessaço”, pode apostar seus dois braços em “Te Ver”, canção ideal para você embalar seu amor naquelas festas noturnas à beira da piscina. 14.05.2008 às 13:27 - Os meus amigos são um barato
Roberto Justus aprova roubar a mãe?
Em homenagem à nova e eletrizante temporada de "O Aprendiz", lembrei desse texto do Camilo.
Eu nunca tive a menor vontade de assistir o "reality" O Aprendiz, de Roberto Justus. Mas, outro dia, quando toquei na Discology a maravilhosa "For the Love of Money", clássico funk-dark dos O'Jays, alguém veio me perguntar o nome, dizendo que era a música-tema do programa. Continuei sem vontade de assistir o programa. Mas fiquei pasmo com a escolha da faixa. Ao que parece, o único motivo de terem escolhido a música é pela parte em que se canta "Money, money, money, money... Moneeey". A não ser que Roberto Justus e equipe estejam mesmo assumindo que vale fazer qualquer coisa pelo dinheiro. A letra diz coisas como: For the love of money (pelo amor ao dinheiro) People will steal from their mother (pessoas roubarão até a mãe) For the love of money People will rob their own brother (pessoas roubarão seu próprio irmão) For the love of money People will lie, Lord, they will cheat (pessoas mentirão, Senhor, trapacearão) For the love of money People don't care who they hurt or beat (pessoas não se importam quem machucam ou em quem batem) E ainda: I know money is the root of all evil (eu sei que o dinheiro é a raiz de todo o mal) Pensando bem, a letra se aplica como uma luva ao dono da emissora onde passa O Aprendiz, um certo bispo que é hoje um dos homens mais ricos e poderosos do Brasil. Bem, deixemos as coisas desagradáveis de lado e vamos curtir a magnificência do O'Jays, cantando a faixa num show de 1974. 12.05.2008 às 16:33 - 159 Musics
159 Musics #2 : "Goodbye Yellow Brick Road"
Depois de semanas sem postar nada devido a ataques de terríveis seres abissais que entraram para zoar os posts e os comentários, aí vai uma maravilha histórica: "Goodbye Yellow Brick Road", com Elton John, no "Muppet Show".
09.04.2008 às 16:21 - 159 Musics
159 Musics #1 : "Window Pane"
Durante o Natal do ano passado, em Lins, interior de São Paulo, fui a uma loja de discos. Encontrei uma série de CDs (piratões, mas de alto nível) de MP3. Em um único disquinho, toda a discografia do, sei lá, Creedence, outro do Led Zeppelin, outro da Madonna e assim por diante.
O mais sensacional de todos era o CD com todas as gravações de Michael Jackson, que se chamava "159 MUSICS". Achei tão bom que resolvi batizar essa série. Serão 159 músicas, ora pois, sem nenhuma ligação aparente entre elas, sem grande lógica, não só novidades nem só velharias. Pra começar, uma que ouvi loucamente durante minha adolescência. "Window Pane", do Real People. Eu queria que minha banda soasse desse jeito. Naquela época, evidentemente. 03.04.2008 às 11:02 - shame on me
Simonal, nossa imprensa e Caco Barcellos
Ontem fui assistir ao filme “Ninguém Sabe O Duro Que Dei”, documentário de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. As virtudes do filme são tão evidentes que só queria ressaltar uma, a mais gritante, que talvez passe em branco na imprensa cultural. Por mais que os discos e as músicas de Simonal revelem seu charme, talento e categoria, era no palco que o cara saltava para a galáxia. E não havia nenhum registro disponível, muito menos condensado, de Simonal em seu ambiente de reinado. Só por isso, e principalmente por isso, o filme já vale. Embora toda a história da confusão em que Simonal se meteu em 1971 (envolvendo boatos de deduragem, espancamento, seqüestro, prisão etc.) seja de cortar o coração, ver o cara em cima do palco, no auge da forma, é muito mais. Outro mérito do filme é sobre a maneira com que ele conta a história da tal confusão: reunindo o máximo de declarações, testemunhas, e acima de tudo, sem direcionar a opinião do espectador. Detalhe: nenhum dos três diretores é jornalista. Assistir às entrevistas de Ziraldo (autor do famigerado Cartum com o “dedo duro de Simonal” n’o Pasquim) e de Jaguar (que já disse coisas tipo “ouvimos falar, não checamos e não vou pedir desculpas pelo que fiz”), me deu uma baita, enorme vergonha do jornalismo cultural brasileiro. Principalmente por notar como ele não mudou em nada. Quando Artur da Távola aparece com sua famosa frase (“vivemos em uma imprensa que toma o indício como sintoma, o sintoma como fato, o fato como julgamento, o julgamento como condenação e a condenação como linchamento”), me deu vontade de me esconder embaixo da poltrona do cinema. Se a imprensa não tivesse feito nada para apurar a verdade (como não fizeram artistas e amigos de Simonal), já seria uma vergonha. Mas ela ainda espalhou os boatos como fatos. A tal ponto do ombudsman da Folha, Mario Magalhães, ainda hoje taxar como “a verdade” um monte de depoimentos contraditórios (só para assinantes do UOL) que juravam, depois do boato instaurado, que Simonal era mesmo informante do regime. Ou seja, o efeito virou causa. Daí me lembrei de um pedaço da entrevista que fiz com Caco Barcellos ano passado para a Revista Fantástico. Esse trecho, que, infelizmente, ficou de fora do meu corte final, narrava uma cena em Maringá, durante uma palestra dele para estudantes de jornalismo. Caco fala sobre “denuncismo” da imprensa atual. Você sabe sobre muito bem sobre quem ele está falando: Entretanto, era flagrante certa decepção dos estudantes quando Caco Barcellos deixou claro que seu compromisso maior não é político, é jornalístico. Heresia suprema: ele acredita que a cobertura do velho caso Collor e do recente Renan Calheiros são exemplos de "denuncismo" da imprensa, a serviço da polêmica, não da informação. "Denuncismo é aquele jornalismo baseado em declarações ou dossiês", explica. "Barbaridades que são quase sempre publicadas atendendo interesses políticos de terceiros e nunca são checadas. Apuração leviana, irresponsável e sobretudo incompetente baseada em apenas declarações. Isso não seria grave em si, desde que não atingisse a honra de alguém." Caramba. Depois de conversar com Caco, o "denuncismo" começou a saltar nas páginas da grande imprensa brasileira, como se fosse uma caneta fosforescente destacando na minha cabeça onde fulano foi "acusado de negociar", cicrano foi "acusado de montar esquema", beltrano foi "acusado de desviar verba", falatório sobre o qual semanas e semanas de manchetes são vendidas. Mas, se é assim há tanto tempo e se vende-se tanta revista com isso, não seria exatamente este o tipo de jornalismo que a nossa classe média espera de nós? "Só se você quiser enxergar a imprensa como algo arrogante, irresponsável e julgador", responde Caco. "Eu não quero essa definição pra mim. Isso combinaria mais com um delegado." 31.03.2008 às 08:30 - tevê
Coffee Break #4
Enquanto eu não descubro por que cargas d'água o Youtube não me deixa uploadar o Coffee Break #3, aí vai a edição de primeiro de novembro de 2007.
26.03.2008 às 11:25 - por trás dessa máscara também bate um coração
Anos 80
Não tenho a menor paciência para essa nostalgia de anos 80, especialmente após ter esgotado toda a minha cota com o "Dias de Luta", mas, veja, não dá para desprezar totalmente uma década que nos deu Jason Vorhees no talk show do Arsenio Hall:
24.03.2008 às 22:55 - arquivos
Grateful Dead - American Beauty
Uma das três "Discotecas Básicas" que escrevi para a Bizz. Esta é de janeiro de 2007.
![]() Grateful Dead - American Beauty Produzido: pelo Grateful Dead Lançado: em novembro de 1970 pela Warner americana, ganhou em 2004 uma reedição em dualdisc. No Brasil, o que resta aos fãs é o DVD Anthem to Beauty (ST2), que documenta as gravações do álbum, que nunca saiu por aqui. Box of Rain/ Friend of the Devil/ Sugar Magnolia/ Operator/ Candyman/ Ripple/ Brokedown Palace/ Till the Morning Comes/ Attics of My Life/ Truckin’ Numa dessas distorções de percepção histórica (não muito difíceis de explicar), o Grateful Dead virou uma espécie de piada riponga, dos shows masturbatórios sem fim, dos fãs ridículos e obcecados em suas camisetas tie-dye apertando as panças, das figuras folclóricas e abobalhadas como Jerry Garcia e Pigpen, da casa vitoriana que virou comuna hippie em Haight-Ashbury e da absoluta falta de conexão disso tudo com o mundo real. Bem, não sou eu que vou te convencer do contrário em parcos 3 mil caracteres, mas vale o registro de que, num intrincado casamento de casualidades, esse sexteto californiano perpetrou um dos mais belos, sensíveis e subestimados clássicos do rock dos anos 60, American Beauty. Era o sexto disco da banda em três anos, no buraco que se abriu entre a fase de espanto causado por aquela draga psicodélica que misturava rhythm’n’blues e country com dodecafonia e aditivos variados nos acid tests da vida (1967/1970) e a fase de caricatura “toca raul”, que durou até o fim da banda, em 1995. O negócio é que, logo no início, o Dead subverteu a regra de trabalho da época, que era centrada na gravação de discos. O forte do grupo eram os shows – dá pra ver pela discografia inicial, que coalhava álbuns ao vivo eletrizantes com discos de estúdio frustrantes. O executivo da Warner Records, Joe Smith, lembra, apavorado, que os músicos “ficavam chapados um tempão, vivendo num mundo de fantasia procurando sons impossíveis” durante as gravações. Não é de espantar que a mitologia da banda em cima do palco crescesse proporcionalmente a seu descontentamento em estúdio. (Dessa fase, entretanto, vá sem medo ao assustador e complicado Anthem of the Sun, de 1968.) Acontece que a mesma mitologia lisérgica e desregrada que a banda ajudou a cristalizar chegava à década de 70 retorcida, fraturada, doente, ressentida. A tragédia de Altamont já havia virado a página da era dos festivais, Jimi e Janis já estavam mortos e, afinal, o “palácio da sabedoria” encontrado ao final do caminho do excesso não era lá tão deslumbrante assim. Bob Dylan e a The Band desmontaram a fase da psicodelia gritante multicor na base da simplicidade e doçura – dando o norte para Crosby, Stills & Nash, os Byrds de Gram Parsons, Neil Young, James Taylor, os Beatles do Álbum Branco etc. Sentados num contrato de nove (!) discos e liberdade absoluta no estúdio, o Dead estava longe de honrar as expectativas da Warner (não à toa, American Beauty foi seu último disco de estúdio pela multinacional). No meio da trajetória esquisitona e de um ambiente revolto no pop planenário, a banda também vivia uma fase de amadurecimento forçado. O pai do baixista Phil Leash havia morrido recentemente e a mãe do guitarrista Jerry Garcia estava agonizando depois de um acidente de carro. Ao mesmo tempo, o tecladista Tom Constanten deixara o grupo e o percussionista Pigpen entrava na reta final de sua humilhante briga contra o alcoolismo, perdida em março de 1973. Esse clima de prostração e reconhecimento seria sentido em cada acorde de American Beauty. O guitarrista Bob Weir lembra disso como “tirar as roupas de astronauta e voltar à Terra vestindo jardineiras”. Há muito de fixações espirituais emolduradas por violões, banjos e letras que falam de morte e passagem do tempo. Às vezes quase religioso (“Há uma fonte que não foi feita por mãos de homens”, em “Ripple”), às vezes raivoso (“Candyman”), às vezes buscando a simples transcendência, (“Quando não havia ouvido algum para ouvir, você cantou para mim”, em “Attics of My Life”), o disco possui harmonias vocais que derramam uma beleza plácida que caminha entre folk, rhythm’n’blues, country, southern gospel, bluegrass e pop americano. Nada de solos, experimentos, ruídos lisérgicos, papos surrealistas. Apenas maravilhosas canções em arranjos acústicos e o choque entre o sonho e a realidade – note como “american beauty”, na capa do disco, pode ser lido como “american reality” também. Não demorou muito, o Dead estaria de volta às turnês monstruosas e aos shows de 6 horas, dando munição aos preconceituosos. De tal forma que nem a recente onda alt-country ajudou a sagrar American Beauty como um dos álbuns básicos da virada dos anos 60 para os 70. Surpreenda-se, então. 19.03.2008 às 11:45 - acabou chorare
A morte das revistas de música
Ainda tem gente falando sobre a inviabilidade de se fazer revista de música no Brasil. Sempre me procuram para falar disso, e eu sempre digo: "posso até falar, mas acredito que não vai ser o que você quer ouvir". Minha opinião é simples e eu sempre a repito: não tem revista de música no Brasil pelo mesmo motivo que não tem futebol nos EUA. Eu não sei explicar, só sei que sempre foi assim.
Acho meio improdutivo ficar discutindo esse assunto, porque, na realidade, é só um "wishful thinking", o de achar que a realidade poderia se moldar ao nosso gosto pessoal. Não, amigões, não é assim que a coisa funciona. Mas, bem, o link original do texto do Jornal do Brasil é este aqui. O texto é de Braulio Lorentz. O leitor que passa os olhos pelas revistas penduradas nas bancas de jornal não tem chance de encontrar uma publicação que seja dedicada à música, sem segmentações de estilo. Só no ano passado, três revistas sobre bandas, discos e shows pararam de circular: Bizz e Revista da MTV, da Editora Abril, e Outracoisa, da L&C Editora. Em meio a um punhado de títulos especializados em gêneros (heavy metal, eletrônica) ou voltados para instrumentistas, sobrevive a versão brasileira da Rolling Stone - que tem na música seu assunto principal, mas que também fala de política, TV, cinema e comportamento. - O mercado de música infelizmente nunca teve um grande número de leitores - sentencia Ronny Hein, diretor da Editora Peixes, com títulos sobre cinema, TV, culinária e surf, entre outros. - Revistas do gênero sempre sobreviveram por meio de assinantes e anúncios de gravadoras. Os mercados editorial e fonográfico estão aturdidos, em busca de novos caminhos. Para José Wilson Fonseca, diretor geral da MTV, há um contexto desfavorável para as publicações musicais. - Não acho que seja coincidência o fim dessas três revistas - afirma Fonseca, que ainda lamenta o fim da publicação de sua emissora, em dezembro, que era distribuída só para seus 17 mil assinantes. - Talvez o tema música não tenha força para manter uma publicação mensal. A notícia está na internet Fonseca decidiu acabar com a versão do canal no papel, mesmo tendo tantos assinantes. Ele conta que preferiu concentrar esforços em fazer mais programas ao vivo e na entrada da TV digital no Brasil, que exige grandes investimentos e encarece muito a produção. - Notícias de música estão disponíveis nos sites. O bolso do jovem continua do mesmo tamanho do de antes da internet. Agora ele prioriza outras coisas, como celulares e videogames - exemplifica o diretor da MTV. Em sua última fase, a Bizz tirava entre oito e 10 mil exemplares ao mês. Dentre as publicações do ramo, era a de maior tradição. A primeira edição foi para as bancas em 1985. - A Bizz vendia 80 mil quando a Capricho vendia três milhões. Agora, a Capricho vende 50 mil, e nós, 10 mil. A proporção melhorou - consola-se Ricardo Alexandre, que já editou duas publicações que naufragaram: a independente Frente, que vendeu 1.500 exemplares de cada uma das três edições lançadas em 2002, e a Bizz. Alexandre diz que a Frente era evidentemente um fiasco do ponto de vista comercial. - Revista de música não tem público. Se quiser fazer, você vai ter de moldar a sua vida, sua alma, sua estrutura e seu trabalho para tocar uma revista pequena. Se for para trabalhar por amor a alguma causa, prefiro escrever sobre religião. Diretora do núcleo jovem da editora Abril, Brenda Fucuta concorda com Alexandre. - Nosso objetivo era aprofundar os temas musicais para o público de 30 a 40 anos. Não alcançamos uma circulação sustentável. O mercado editorial impresso de música é de nicho. As revistas de grande circulação passam por estilo de vida e celebridades. A música se pulverizou por muitas mídias - analisa Brenda. Entre as revistas lançadas nesta década, uma das que tiveram mais fôlego foi a Zero. Foram 15 edições, com tiragem (declarada) de 50 mil exemplares entre 2002 e 2004. - A revista acabou porque não era mais viável comercialmente para nós - conta Luiz César Pimentel, que era diretor de redação da Zero. - Tínhamos um acordo com a Editora Escala em que eles davam uma taxa mensal para produção da revista. Imprimiam, distribuíam e ficavam com o dinheiro de banca. A receita de publicidade era dividida igualmente. Quando mudaram o diretor comercial da editora, disseram que dali em diante seria 80% para eles e 20% para nós. Com cinco edições em 2005 e tiragem média de 25 mil exemplares, a Mosh, da editora HMP, acabou por falta de anunciantes. - O espaço para revistas de música no Brasil é mínimo. A parcela de leitores que se interessa por música de boa qualidade é muito menor do que imaginavámos - garante Regis Tadeu, que editava a Mosh. Para os padrões atuais, a grande maratonista das bancas foi a Outracoisa, que durou 22 edições nas prateleiras e saiu do mercado após o fim do contrato de patrocínio com a Petrobras. O último número foi lançado em novembro; a revista sempre trazia um CD encartado, e a tiragem era de oito mil a 25 mil. - Não tínhamos um departamento comercial capaz de fazer surgir um patrocínio - explica Adilson Pereira, editor do título, que levava a alcunha de "revista do Lobão" por causa da participação do músico no conselho editorial. - As publicações têm que ser comercialmente viáveis, mas é preciso encarar a missão com romantismo. "A 'RS' não é revista de música" Pimentel também é da turma dos otimistas. - O Brasil é um país para revistas: de música e do que quer que seja - garante o jornalista. - Tantos títulos de música acabaram pois há um monopólio no Brasil que une distribuidoras e editoras, que determinam o que vai para as bancas ou não. Eles buscam resultado imediato. Se lançassem uma publicação de música, de qualidade, a preço bastante acessível, daria pé. Ademir Corrêa, editor da Rolling Stone nacional, não vê sua revista como uma publicação do tipo. - Historica e erroneamente a Rolling Stone é considerada uma revista de música - diz. Ele está munido de um gráfico de porcentagem dos temas da revista: 35% de música; 15% de mídia e indústria do entretenimento; 15% de política e comportamento; 10% de moda; 10% de cultura geral (cinema, TV, internet, games); e 10% de tecnologia. - Não temos concorrência, por isso temos que nos basear em publicações internacionais - explica o editor da RS, que tem tiragem média de 100 mil. - Seria difícil manter uma revista só de artes plásticas ou de um segmento cultural. É o caso de uma revista de música. 11.03.2008 às 13:46 - eu, a fonte
Escuta
Esse é o trabalho de conclusão de curso do João Mauler, de Juiz de Fora. Ele esteve no final do ano passado em São Paulo para entrevistar alguns jornalistas e eu fui um deles. Chama-se "Escuta", o documentário, e é sobre as novas possibilidades de carreira e relação de artista e público em tempos de internet.
E o jeito que eu estou falando? Parece afetação, mas era um misterioso sumiço de voz que me atacou por umas duas semanas. Bem, fiz o que pude. "Escuta" está dividido em três partes: 07.03.2008 às 13:50 - arquivos
A vida é doce
Antes que a “Bizz” voltasse ao formato mensal, em 2005, botamos nas bancas algumas séries de especiais. Uma delas foi “A História do Rock”. O formato era assim: cada matéria focava em um episódio histórico marcante e, a partir dele, nós "abríamos" o foco em direção a tudo o que aquilo representou.
No primeiro volume da série, que ia dos anos 30 até o início dos anos 60, eu escrevi sobre Frank Sinatra, sobre como ele foi o responsável por a) inventar essa figura de "ídolo pop" e b) inventar a "ressurreição", depois de anos curtindo a decadência. A data-chave é abril de 1953, quando Sinatra assinou com a Capitol Records e entrou na sua melhor fase. Ficou um texto bem bonitinho. ![]() Ele inventou o que conhecemos até hoje como pop. Depois da queda mais espetacular que um artista poderia experimentar, Frank Sinatra voltou para dar as cartas definitivamente Há quem jure que foi exatamente assim: Frank Sinatra, o jovem Sinatra, no palco do Copacabana de Nova York, aguardava fora do foco de luz a introdução de “When You're Smiling”, que tradicionalmente abria seus shows. Era 26 de abril de 1950 e o homem que inventou a cultura pop com todo seu desdobramento comportamental está estranhamente nervoso. Ele se aproxima do microfone, toma fôlego no tempo exato, mas sua voz simplesmente não sai. “Boa-noite”, dizem que ele murmurou antes de se esquivar dos olhares de uma platéia petrificada e deixar o palco a passos rápidos. Estressado, acossado pela imprensa sensacionalista, recém-separado da mãe de seus três filhos e – mais essa agora – com uma hemorragia na garganta, Frank Sinatra se espatifava no fundo do poço. Parecia que as cortinas finais haviam baixado para ele. Os tempos em que as adolescentes histéricas cerravam as portas do Paramount Theatre dias a fio pareciam distantes em séculos. Seu “The Frank Sinatra Show” era um fracasso. O Senado estava em seus calcanhares por causa do suposto envolvimento com a máfia. Preocupada com o ritmo da queda, sua gravadora, Columbia, o convenceu a fazer porcarias inacreditáveis como “Mama Will Bark” – com o escritor Donald Bain imitando um cachorro – para depois dispensá-lo de seu elenco. A MGM não o queria mais como ator, muito menos a Universal. Nancy o botou pra fora de casa, mas não lhe concedeu o divórcio, e o velho conquistador (em cujo currículo constam deusas como Lauren Bacall, Sophia Loren e Marilyn Monroe) agora protagonizava cenas de humilhação explícita, caído que estava por Ava Gardner. Foi aí que, em abril de 1953, Frank Sinatra, pioneiro em tantas maravilhas, inventou outro fundamento da cultura pop: a ressurreição. Na Columbia – onde foi parar depois de abafar como crooner da orquestra de Tommy Dorsey entre 1940 e 1942 –, Sinatra chegara como "a próxima grande coisa" da música americana. Com a segurança de quem cresceu nas ruas de Nova Jersey e a esperteza que a infância pobre o obrigou a ter, o cantor combinava a influência de Bing Crosby à apurada técnica de respiração aprendida com Dorsey e à articulação imponente de Billie Holiday. Num período de dez anos, emplacou diversos hits nas paradas (“I've Got a Crush on You”, “Someone to Watch Over Me”, “Stormy Weather”) e criou uma espécie de amálgama entre o som das big bands dos anos 30 e 40, o jazz vocal de Louis Armstrong e o traditional pop de Crosby. No processo, inventou o que hoje chamamos de swing, derramando charme sobre as pistas de dança, trazendo para as paradas compositores até então restritos ao universo dos musicais da Broadway (Cole Porter, George Gershwin, Richard Rodgers) e celebrizando a imagem do bon-vivant invejado pelos rapazes e idolatrado pelas mocinhas de meias soquete e rabo-de-cavalo. Era o cantor pop que Leonard Bernstein elogiava publicamente e o primeiro ídolo teen a dar a receita seguida até hoje por justin timberlakes e robbie williams mundo afora. A Segunda Guerra Mundial grassando, os japoneses bombardeando de supetão o Havaí, a bomba atômica sendo testada em Los Alamos e Sinatra emanando cooleza pelos microfones da NBC ou arrancando suspiros nos cinemas do mundo em “Marujos do Amor”. Ao longo da década de 40, não havia ameaça ao reinado de Frank Sinatra, a única saída para quem procurava alegria, juventude, liberdade e hedonismo naqueles tempos esquisitos. Não à toa, o grande jornalista David Halberstam emparelhou o papel do cantor aos de Ernest Hemingway na literatura, Joe DiMaggio nos esportes e Humphrey Bogart no cinema: poderosos e certeiros fachos de luz em uma América sufocantemente moralista e militarizada. Dez anos depois, às portas da era do rock, dolorosamente Frank Sinatra parecia apenas um almofadinha deslumbrado com o estrelato. O jazz, do qual ele era uma espécie de figura pública pop, havia se intelectualizado mortalmente com o surgimento do be bop – a música negra sexual e dançante era agora o rhythm’n’blues. Àquela altura, diziam que Sinatra tinha parte com a máfia, especialmente com a turma do temido Lucky Luciano. Por causa de seu apoio à Cruzada Americana pelo Fim dos Linchamentos, a imprensa cogitava também seu envolvimento com o comunismo. A relação entre Sinatra e os jornalistas foi tensionando até o ponto em que ele esmurrou o colunista Lee Mortimer em um clube de Hollywood. Agora, “A Voz Que Emociona Milhões” era o alvo predileto dos jornais sensacionalistas. Seus novos discos, como “Every Man Should Merry” e “Sorry”, patinavam nas paradas. Apesar disso tudo (ou por causa disso mesmo), o cantor adotou um estilo de vida cada vez mais escandaloso. Não fazia mais questão de esconder seu romance com Ava Gardner (que o levou a tentar o suicídio duas vezes), seu desprezo pela imprensa, nem mascarar sua própria decadência. Desnorteada, a Columbia viu no produtor Mitch Miller a solução para todos os problemas. O nova-iorquino Miller, cabeça do departamento artístico da Columbia, era um misto de homem de marketing e de arte e já havia emplacado Frankie Laine e Patti Page – e, dentro de pouco tempo, sairia com outros hits como Johnny Mathis e Tony Bennett. Sobre um fragilizado Sinatra, o produtor experimentou a valer um tipo de som de raízes negras e suburbanas, como “Bim Bam Baby” e “Tennessee Newsboy”. Aquilo não tinha nome ainda, mas era a indústria fonográfica tateando em busca do rock'n'roll – tanto isso é verdade que o principal elo perdido entre o traditional pop e o rock, Johnnie Ray, surgiu sob as asas de Miller. A aventura de Sinatra, entretanto, foi um fiasco que mataria o cantor de vergonha pelo resto da vida. Sinatra deixou a Columbia soltando fogo pelas ventas e agora, andando no meio-fio da rua da amargura, precisou de empréstimos dos amigos para não falir. Quase não acreditou quando a Capitol lhe abriu as portas, em abril de 1953. No lugar do mito, um sujeito de 30 e poucos anos solapado pela vida, cantando suave e sofisticadamente. Calhou de, junto dele, estar o maior arranjador americano de todos os tempos, Nelson Riddle (na época, aos 32 anos, braço direito de Les Baxter); calhou também de a gravadora estar entusiasmada com o formato long-play de 10 polegadas. Riddle e Sinatra criaram uma memorável série de álbuns amarrados tematicamente, começando com o antológico e romântico “Songs for Young Lovers” e partindo para o dançante “Swing Easy”, o sombrio “In the Wee Small Hours”, o "globalizado" “Come Fly With Me”... O renascimento de Sinatra como artista adulto culminaria com o Oscar de melhor ator coadjuvante de 1953 por sua atuação no clássico “A um Passo da Eternidade”. Interessante que seu vôo mais alto tenha se dado no exato momento da explosão do rock. Eles lá e Sinatra aqui, pólos complementares de um mesmo espectro pop. Diferentemente de seu inimigo predileto, Mitch Mitchell, “o homem que odiava rock'n'roll”, Sinatra simplesmente não entendia o novo gênero. Mesmo de novo acima do bem e do mal, continuou pelos anos 60 perguntando a seus chegados por que cargas d'água não tinha mais singles entre os Top 10 da “Billboard”. (O cantor reclamava de barriga cheia; de fato, seus singles não vendiam lá essas coisas, mas nada menos que 20 de seus álbuns freqüentaram as 10 mais entre 1958 e 1966, o que provava seu apelo junto ao público adulto.) O flerte dos velhos olhos azuis com o rock foi do risível ("Mrs. Robinson") ao simpático ("Something"). Mas rendeu ao menos um momento sublime: o álbum conceitual “Watertown”, de 1969, tudo o que Nick Cave queria fazer umas décadas depois. Mas, nesse caso, a música era só a cobertura do doce. A contribuição de Sinatra para a cultura pop foi muito mais profunda, enraizada que está na própria relação que todos temos com a música gravada. 05.03.2008 às 11:32 - tevê
Coffee Break #2
Episódio de 11 de fevereiro de 2007.
04.03.2008 às 12:53 - volume dois
Tim Maia Definitivo: Coda
Depois, conversando com o João Marcello Bôscoli, falamos sobre a edição da Trama do “Tim Maia Racional Volume 1”. Disse a ele que me decepcionei um tanto porque a edição pirata quase sempre juntava os dois volumes em um único álbum, e eu esperava que a Trama fizesse não menos do que isso. Na verdade, eu esperava mesmo que ela lançasse os dois volumes, mais compactos e os tais tapes inéditos (dos quais ouvia falar há anos, mas, confesso minha falta de fé, achava que seriam só mais uma das boas conversas do Dudu). João me contou que as negociações com a família do Tim foram totalmente sentimentais, com royalties muito acima do racional (com trocadilho, por favor), por causa dos famosos 300 processos trabalhistas que ainda rolam envolvendo o nome do cantor. De tal maneira que nem as mais de 30 mil cópias da edição em CD do “Racional 1” deram lucro. De tal maneira que Nelson Motta teve de negociar uma participação nas vendas de seu livro para a família de Maia. De tal maneira que “Tim Maia Definitivo” foi e continuará no limbo. E agora, veja como são os tempos que vivemos, o “Tim Maia Racional” caiu na rede. O Camilo deu o link de um arquivo com as faixas inéditas zipadas. Na onda, apareceu até um “Compacto Racional”. Cenas do próximo capítulo: a família do Tim vai continuar nos tribunais, o Racional 3 vai continuar inédito, o Racional 2 não vai sair tão cedo. E eu vou montar meu próprio box-set racional aqui em casa. Que legal viver em 2008. 04.03.2008 às 12:51 - novo post
Tim Maia Definitivo
![]() Acho que tenho uma contribuiçãozinha nessa história toda do “Tim Maia Racional 3” que pipocou na internet semana passada. Nada comparada à epopéia do Dudu Marote, mas ainda assim um bom exemplo de como (e porque) as coisas (não) funcionam no Brasil. É assim: Ano passado, eu trabalhei por vários meses como consultor de projetos para a gravadora Som Livre, o selo carioca ligado à Globo, especializado em trilhas e em compilações. Sabendo do livro do Nelson Motta sobre Tim Maia, sugeri a criação de uma nova linha de coletâneas chamadas “Definitivo”. Seriam álbuns duplos, de 40 faixas, encartes gordões, embalagens bonitonas, com um repertório wide-spanning mesmo, sempre lançado com calor “jornalístico”. Queria fazer o “Tim Maia Definitivo” para sair no calor do livro, e armar um “Simonal Definitivo” pra sair junto com o filme do Cláudio Manoel, e um “Titãs Definitivo” para sair na época do filme do Oscar Rodrigues Alves. Bem, fiz o tracklist (qualquer dia coloco aqui), de “Meu País” de 1969 na CBS até a nova Banda Black Rio fazendo a base de “Reencontro” num dueto pós-morte no ano 2000. Conversando com o Nelson Motta sobre o disco, até pra pedir as bênçãos, ele contou sobre as inéditas que, durante a reportagem do livro, ele descobriu. Citou oito faixas inéditas da fase racional e mais uma meia dúzia pingadas que estão nas mãos de músicos. Ele próprio fez a ponte entre o Kassim, que estava com os tapes racionais, com o doutor Júlio César Figueiredo, que vem a ser o advogado que cuida do espólio do Tim. Aí, entre as 40 músicas de “Tim Maia Definitivo”, no meu pretenso tracklist, eu incluí todos aqueles clássicos, faixas historicamente importantes e botei lá algumas inéditas e ultra-raras para chamar atenção: “João Coragem”, que é uma versão de “Padre Cícero” com outra letra, “Assim Na Terra Como No Céu”, que foi tema da novela de 1970 e ficou perdida desde então. E botei lá “Universo em Desencanto Disco”, desse tal “Racional 3”. Do alto da minha ingenuidade, eu achava que a coletânea chamaria novos ouvintes para a discografia original do cantor, seria interessante para os velhos fãs (por conta das inéditas) e ainda serviria como trailer para esse material inédito. Aí vieram os golpes. Kassim não queria desmembrar o material que tinha em mãos, para preservar sua integridade artística. Queria convencer alguma gravadora a lançar um CD com oito (talvez cinco) faixas e ainda bancar o restante da restauração dos tapes. Lamentou, mas disse que não ia liberar. Os advogados de Tim Maia, por sua vez, vetaram o lançamento da coletânea em si, porque, afirmavam, a família entendia que um disco dessa natureza iria ser ruim para os discos de carreira do cantor. E disseram que estavam com um processo contra a Som Livre ainda não resolvido. E esta é a história do “Tim Maia Definitivo”. O livro do Nelson Motta saiu, o gancho acabou, esse ano tem alguma data redonda aí que provavelmente não será comemorada. Alguém deve ter ficado satisfeito nesse processo, mas eu não consigo identificar quem. 29.02.2008 às 15:46 - videozinho
Star Wars: The Clone Wars
É como eu já dizia desde "A Ameaça Fantasma": se é pra fazer "Star Wars" todo armado no computador, então faz logo uma série de desenhos animados. 22.02.2008 às 16:05 - arquivo
Máquina de escrever arte
Publicada na Revista MTV de outubro.
![]() Como um pesadelo esquisitão gerou o maior artista de seu gênero. Maior e único, na verdade. Olhe bem para a imagem acima. Sim, senhoras e senhores: o desenho não consumiu um byte sequer de computador. Trata-se do obsessivo trabalho do australiano Andrew Macrae, de 36 anos, que se define como um “escritor, editor, músico e artista de máquina de escrever”. Andrew tem chamado a atenção por sua pouco usual técnica artística: ele produz ilustrações detalhadíssimas usando uma velha máquina de escrever. E ainda faz pouco caso disso: “Desde que existe máquina de escrever as pessoas tentam usa-las de algum jeito não-convencional para fazer arte”, contemporiza. “O que acontece é que hoje em dia, ela ganhou um ar de estranhamento e idiossincrasia, porque máquinas de escrever viraram peças nostálgicas de uma era pré-digital. Quer dizer, quem conhece alguém que ainda tenha uma máquina? E, pior, que a use para fazer arte??” Andrew também está metido em diversos projetos, como livros de ficção-científica, seu curso para PhD em “redação criativa” e uma banda de rock lo-fi, tortoiseshell cat, com o também ilustrador an-d. De Melbourne, onde mora com a esposa, Andrew falou com o Se Liga. Sei que você deve responder isso todo dia, mas… como você faz esses desenhos? Pra mim, é como um processo de colagem. Eu acho uma imagem que eu quero usar e então, eu a recrio em diferentes camadas. Eu uso as fitas vermelha e preta da máquina de escrever exatamente como se fosse um grafitte stencil de duas cores – coisa que eu aprendi a fazer em Melbourne. Depois, eu reproduzo a imagem com uma das minhas máquinas – eu uso uma Olymbia SG3 de 1965 e uma Hermes 3000 de 1968. Se eu erro, tenho de começar tudo de novo – em um papel de ph neutro. Se eu erro, tenho de começar tudo de novo. Mas é tipo mágica, quando as imagens começam a surgir nas cartas. Você fez curso de datilografia? Não! Eu aprendi a digitar sozinho, usando um programa de computador (risos). Você usava uma máquina adaptada para cegos, não? Tem uma história interessante sobre isso. Essa máquina pertencia a minha avó, que ficou cega por causa de um acidente vascular. Então, eles tentaram ensina-la a datilografar colando duas bolas vermelhas nas teclas principais. Aquilo não funcionou e a máquina acabou encostada na casa dos meus pais, e eu simplesmente brincava com ela quando era criança. Meus pais se livraram dela quando eu saí de casa. Acontece que há uns três anos, eu tive um sonho com aquela máquina. Ela era cheia de uma estranha mágica. As bolas vermelhas brilhavam e seu corpo flutuava em energia. Eu me inclinei e dei uma grande fungada nela, e o cheiro de solventes e tinta e óleo quase me fizeram desmaiar. Daí eu decidi que o sonho queria me dizer alguma coisa, então eu saí procurando máquinas de escrever. Comecei a colecionar e hoje tenho 12 delas em casa. O mais estranho é que uma tia minha, quando soube disso, me procurou com uma máquina que estava em sua garagem. E esta vem a ser aquela do meu sonho, que eu julgava perdida, e que eu usava quando era criança! Ela está comigo agora, me emprestando sua mágica... Eu tenho certeza que agora mesmo nossos leitores estão pensando em tirar o pó de suas máquinas e começar a fazer arte. Você tem algum conselho para eles? Do it! Tem um monte de coisas bacanas que se pode fazer com uma máquina de escrever, é só descobrir o método que tenha mais a ver com você. Diga para seus leitores mandarem pra mim o que eles fizerem: andrew.macrae@gmail.com. 22.02.2008 às 15:50 - eu, fotógrafo
A cultura caiçara vive
![]() Ubatuba, alto verão, centro comercial da cidade. 2008. 22.02.2008 às 15:47 - para o site
5 perguntas para Fernanda Takai
![]() “Onde Brilhem os Olhos Seus” é um dos melhores discos de 2007 e deve ter saído ano passado só para não ser confundido com a já sacal comemoração dos 50 anos de bossa nova. Nele, a vocalista do Pato Fu, Fernanda Takai, reinterpreta clássicos e raridades do repertório de Nara Leão, sob brilhante produção e arranjos do maridão, o guitarrista John. O disco ganhou o prêmio APCA e teve sua primeira tiragem esgotada. Agora, a Deckdisc anunciou que vai relança-lo. Troquei alguns emails com Fernanda, no meio dos ensaios dela para a turnê do show solo – que estréia dias 8 e 9 de março, em São Paulo. “Projetos paralelos” sempre significam alguma coisa. Pode ser relação desgastada, pode ser ambição de carreira solo mesmo, pode ser vontade de experimentar novos sons... No seu caso (e no caso do Pato Fu), o que significa "Onde Brilhem os Olhos Seus"? Eu realmente não pensava em fazer um disco solo enquanto a banda ainda estivesse na ativa – ou mesmo enquanto ela ainda significasse muito pra mim. Acho até mesmo que o Pato Fu atual me representa melhor como artista do que no começo de carreira, então não haveria motivo pra uma carreira solo propriamente dita. Esse disco é um projeto solo, um disco de intérprete com um universo musical de canções bem definido. Todos os outros integrantes do Pato Fu têm projetos musicais paralelos, só eu que não tinha. Então resolvi fazer algo também, mas não significa que deixei a banda de lado. São coisas simultâneas. O Pato Fu surgiu no meio das bandas que a gente chamava MPopB, que misturavam rock com elementos brasileiros. Vocês sempre foram orgulhosos de nunca apelarem para batuquinhos ou macumbas do gênero. Bem, seu disco solo está longe de poder ser encaixado na prateleira tradicionais de MPB, mas é Nara Leão, é bossa nova, é Menescal, é Nelson Motta... Dá pra ter uma noção mais precisa do quão brasileira é a sua música? Eu sempre fui contra os purismos. Mas gosto da possibilidade da mistura – desde que ela não seja gratuita. Sou uma artista brasileira que sofre influência da música do meu país, mas também do mundo inteiro, sem restrição de época ou estilo. Acredito que minha música possa encontrar platéias em outros lugares que não o Brasil, porque cada vez mais as fronteiras ou a língua importam menos nessa relação ouvinte/músico. A empatia subjetiva que uma voz, um arranjo ou composição despertam nas pessoas independem de idioma ou tendência de mercado. Até por ser um "projeto", e não apenas uma reunião de canções, "Onde Brilhem os Olhos Seus” deve ter partido de algumas bases conceituais. O que vocês pretendiam desde o início? E o que mudou durante as gravações? Sinceramente, o disco foi feito de uma forma despretensiosa. Não havia cronograma, selo, patrocínio, tudo aconteceu por pura vontade artística. A base conceitual definida foi a da reorganização de novas possibilidades estéticas para canções muito conhecidas. A gente só sabia que queria fazer um disco dedicado à Nara, onde fossem cantados/contados todos os universos musicais que ela escolheu ao longo da carreira. No Pato Fu mesmo, sempre que fizemos versões de outros artistas, tentamos desconstruir a música original e remontá-la à nossa maneira. Mas uma coisa que buscamos agora foi fazer o álbum foi a elegância e bom gosto que Nara imprimiu nas capas de seus discos, repertório, jeito de levar a carreira mesmo. Só que esse foi um ponto que já chamava a atenção do Nelson quando me convidou pra fazer o disco. De certa forma, não forcei muito a minha própria natureza. Fernanda, o disco ao vivo do Pato Fu (de 2002) me pareceu colocar um certo ponto final na trajetória da banda, mas um ponto final que permita a vocês manterem o grupo funcionando, gravando, tocando ao vivo. Mas, olhando aqui de longe, parece que o "trabalho" do Pato Fu na história do pop brasileiro se encerraria ali – “my work is done”, sabicumé?. “Agora é cuidar dos filhos, gravar solo, tocar de vez em quando...” Qual a importância que a banda tem na sua vida atualmente, comparando com, sei lá, há dez anos atrás? Eu discordo. Acho que os dois últimos lançamentos (“Toda Cura Para Todo Mal”, de 2005, e “Daqui pro Futuro”, de 2007) nos colocam num outra fase importante da nossa carreira. O disco de 10 anos (“MTV Ao Vivo Pato Fu: No Museu de Arte da Pampulha”) feito em 2002, com o registro em DVD, fazia muito sentido pra gente por ser um documento visual mesmo, com qualidade bacana. Teve como função mostrar o Pato Fu até ali. Só o fato de termos refeito vários arranjos e incluído músicas inéditas, quando poucos ligavam pra isso em discos assim, mostra que não estávamos com preguiça ou enfadados com nós mesmos. Como te disse antes, acho que eu pessoalmente me sinto mais à vontade como compositora e cantora no Pato Fu de hoje. Ano passado, lançamos o dvd (“Toda Cura Para Todo Mal”) com clipes pra todas as músicas de um só álbum (coisa ainda pioneira no Brasil), exercitamos ao máximo todo o nosso modo independente de ser com total autonomia de estúdio, mixagem, produção. O Pato Fu ainda é minha principal atividade artística e com muito gosto. Só que hoje faço outras coisas: escrevo, tenho uma filha pra criar, um álbum solo e uma nova turnê pra fazer, mas nada disso me impede de continuar tendo foco nesse objetivo comum a todos nós da banda. Acho que algumas de nossas melhores canções estão nos discos mais recentes... E quero tentar escrever outras tantas mais. Pra terminar apoteótico: que avaliação você faz da geração do rock nacional dos anos 90? Puxa vida, pergunta muito ampla, difícil falar dos outros... Há nomes importantes que estão na ativa, cada um com sua história e escolhas. Sinto muito que algumas bandas não tenham resistido ou que a gente tenha perdido uma pessoa como Chico Science... O Pato Fu mesmo é um projeto improvável (pela diversidade sonora) que continua até hoje por conta de muita vontade interna, de não achar que a carreira só é construída por números. A gente teve altos e baixos, mas nunca deixou de lançar os discos que quis, mesmo que todos torcessem o nariz. E fico feliz em viver da música que sei fazer genuinamente, sem qualquer tentativa de encaixe em determinada turma. 18.02.2008 às 14:02 - minha fé
Faxina abençoada
![]() ![]() Na época em que o li pela primeira vez, eu estava acometido pela absurda idéia de produzir anotações profundas sobre cada livro, capítulo e versículo da Bíblia, lendo-a de capa a capa simultaneamente a enciclopédias, livros históricos e estudos teológicos. Depois de seis meses, ainda não havia passado do primeiro capítulo do Gênesis, então desisti da loucura. Mas “Bridging the Gap” já havia me norteado numa redescoberta de convicções muito profunda. Basicamente, o livro concatena, em 210 páginas, uma tonelada de informações técnicas sobre a formação do mundo até o surgimento do homem. E mostra como a descrição que existe no Gênesis é idêntica àquela que se descobriu por meio do Carbono 14 e outras ferramentas da ciência nos últimos três séculos. O quadro acima, que abre o livro, é um resumão da tese de Daae. Eu fiquei tão obcecado pelo assunto que me afundei em coleções de National Geographic, documentários do Discovery, botânica primitiva e livros sobre dinossauros e animais pré-históricos. Fiz anotações frenéticas sobre calendários druidas, tradições hebraicas, estrelas, nebulosas tudo o mais. Passado tanto tempo, confesso que tive dificuldade para entender o que anotei, mas a idéia básica é mais ou menos a seguinte (depois dos trechos correspondentes na Bíblia): No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Disse Deus: haja luz. E houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro. "Sem forma e vazio" era como o universo era há mais de 14 bilhões de anos, que foi quando surgiu a primeira estrela. Ou era como o escritor do Gênesis poderia explicar um ambiente descomunal, escuro e quase que todo formado por hidrogênio e gás hélio – o astrofísico Tom Abel, da Universidade Estadual da Pensilvânia chegou a essa conclusão há coisa de uns quatro anos. "Luz" é o sol, a principal estrela do nosso sistema, surgida com a compressão de massa provocada pelo alastramento desse universo. "Separação entre luz e trevas" é a criação do movimento de rotação da terra. O particípio "merahefet", traduzido como "pairava sobre", também é usado para "encubar", como se Deus estivesse gerando vida nas águas. E a arqueologia já achou algas datadas do início do pré-cambriano. Ou seja, esse primeiro dia de criação corresponderia de 15 bilhões de anos atrás até o pré-cambriano. E disse Deus: haja um firmamento no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento, e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E assim foi. Chamou Deus ao firmamento céu. E foi a tarde e a manhã, o dia segundo. "Águas de cima" e "águas de baixo" significa o processo de evaporação das águas quentes que até então cobriam a terra e o surgimento das nuvens. Vapor d'água é o que mantém a temperatura na terra e filtra a radiação do sol – no meio desse processo, houve a primeira era glacial. Deus continua preparando as condições para o surgimento da vida. Esse segundo dia seria o Paleozóico. E disse Deus: Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça o elemento seco. E assim foi. Chamou Deus ao elemento seco terra, e ao ajuntamento das águas mares. E viu Deus que isso era bom. E disse Deus: Produza a terra relva, ervas que dêem semente, e árvores frutíferas que, segundo as suas espécies, dêem fruto que tenha em si a sua semente, sobre a terra. E assim foi. A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo as suas espécies, e árvores que davam fruto que tinha em si a sua semente, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro. O mundo era um lugar quente e úmido, um prolongamento de algo parecido como um "efeito estufa" do Paleozóico. A Bíblia sugere que havia apenas uma porção de terra em todo o globo – coisa que a geologia concluiu em 1950, quando surgiu a teoria da "Pangéia", o supercontinente do qual surgiriam todos os que temos hoje. O "dia terceiro" é chamado de era mezozóica, onde surgiram as primeiras plantas – plantas mesmo, não algas de antigamente. E disse Deus: haja luminares no firmamento do céu, para fazerem separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para estações, e para dias e anos; e sirvam de luminares no firmamento do céu, para alumiar a terra. E assim foi. Deus, pois, fez os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; fez também as estrelas. E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia quarto. Aqui há descrições perfeitas para eventos da astronomia, feitos muito tempo antes dos primeiros conceitos astronômicos. O céu estava claro, sem a névoa que pairava até então, e "luminares para fazer a separação entre o dia e a noite" significa a utilização do sol e a lua para demarcar o dia e a noite; "para sinais" significa os pontos cardeais; "para estações" significa o movimento de translação. Essa descrição casa com o paleozóico primário e o mezozóico secundário, talvez o período de maior mudança climática da pré-história. E disse Deus: Produzam as águas cardumes de seres viventes; e voem as aves acima da terra no firmamento do céu. Criou, pois, Deus os monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam, os quais as águas produziram abundantemente segundo as suas espécies; e toda ave que voa, segundo a sua espécie. E viu Deus que isso era bom. Então Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas dos mares; e multipliquem-se as aves sobre a terra. E foi a tarde e a manhã, o dia quinto. Depois de tantas mudanças climáticas, a Terra já estava pronta para a explosão da vida animal. Esse período coincide com o triássico, jurássico e cretáceo. A clássica tradução "King James" fala em "criaturas que se movem" e "seres alados", dando a entender que o autor do Gênesis pretendia se referir aos dinossauros e plesiossauros. É desta fase o surgimento das tartarugas, lagartos, crocodilos, corais e várias espécies de peixes que comemos até hoje. E é também aqui que acontece o rompimento da Pangéia e a extinsão dos dinos. E disse Deus: Produza a terra seres viventes segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies. E assim foi. Deus, pois, fez os animais selvagens segundo as suas espécies, e os animais domésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom. E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Disse-lhes mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que produzem semente, as quais se acham sobre a face de toda a terra, bem como todas as árvores em que há fruto que dê semente; ser-vos-ão para mantimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo ser vivente que se arrasta sobre a terra, tenho dado todas as ervas verdes como mantimento. E assim foi. E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. E foi a tarde e a manhã, o dia sexto. Aqui está o surgimento de todos os mamíferos e répteis, dos legumes, das verduras, dos animais domésticos e dos selvagens de pequeno porte. Os bípedes hominóideos já estavam em todos os continentes havia mais de 20 mil anos até que, há coisa de 7 mil anos, Deus "soprou a vida" (capítulo 2, versículo 7) em um deles e surgimos nós. Tudo o que aconteceu aqui durou 65 milhões de anos no Cenozóico. Não sei você, mas eu fiquei muito impressionado com tudo isso. Preparando esse texto, tive a grata surpresa de descobrir que Donald Daae criou um site, que centraliza os trabalhos de um associação de pesquisas sobre o Gênesis. Seu livro, "Bridging the Gap", me levou às seguintes conclusões. - Não há a menor chance de que, naquela época remota, camponeses e agricultores (ou mesmo príncipes, como Moisés) tivessem acesso a noções de arqueologia, botânica e paleontologia e, mais ainda, ao encadeamento disso tudo, se isso não fosse revelado por Deus. Sem chance mesmo. - A Bíblia foi escrita por homens, que descreviam o que Deus lhes revelava usando os conhecimentos e os argumentos de que dispunham. Sem essa de que Deus "ditou" palavra por palavra, como crêem os fundamentalistas. - Me parece óbvio que Deus criou certas coisas a partir do nada ("haja luz", "haja separação entre terras e águas"), mas que a maioria esmagadora do processo de criação se deu por meio da reorganização dos elementos e da evolução. Como diria Francis Collins, "se Deus escolheu o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta (...), quem somos nós para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?" "Bridging the Gap: The First 6 Days" foi um livro que fez muito bem à minha sede de argumentação. Recomendo a todo mundo que acha que razão e fé podem (ou devem) andar juntas. 16.02.2008 às 11:47 - os meus amigos são um barato #1
Lá vem o negão, cheio de paixão
Em 1994 uma música extraordinária chamada “Lá vem o Negão”, do grupo Cravo e Canella tomou conta das ondas de rádio do Brasil. Extraordinária porque quando uma música conquista o país de Noel e de Cartola, de Vinícius e Candeia, de Roberto e Erasmo, de Ary Barroso e Adoniran, alguma coisa ela precisa ter. É como dizem no interior: “Se uma vaca é malhada, pelo menos uma pinta ela tem.” E até ontem, eu não entendia de onde vinha o magnetismo que cativou a nação. Sim, eu era capaz de perceber a intrigante sugestão do Negão como uma espécie de canivete suíço da sacanagem, o homem disposto a encarar todas, com amor e sem preconceito que é como deve ser. E também percebia a qualidade chicletistica e ringtoniana da melodia. Mas a ficha mesmo, só me caiu esta semana, assistindo ao telejornal. Ao acompanhar as notícias da corrida eleitoral Americana percebi a força da clarividência refletida nos olhos esbugalhados de tia bêbada em casamento de Hillary Clinton, editada contra o sorriso confiante de Barack Obama. Então era isto! Uma premonição! O Brasil já sabia em 1994 que lá vinha um negão, cheio de paixão, te catá, Mrs Clinton. Não é que o Brasil é o país do futuro mesmo. Do futuro dos Estados Unidos. Ainda assustado com aquele momento Padre Quevedo, corri à Internet para buscar a letra da música e qual não foi o susto que tomei. Como uma brincadeira do copo que fica sem graça quando sua amiga gira o pesco 360º graus e começa a falar aramaico. Transcrevo aqui alguns trechos para que analisemos: “Lá vem o negão / Cheio de paixão /Te catá, te catá, te catá” Ok, até aqui já está claro que Obama vem crescendo nas brechas da candidatura de Hillary. “Querendo ganhar todas menininhas /Nem coroa ele perdoa não”. Uma alusão à vantagem que o Sr. Barack apresenta entre os eleitores jovens e os endinheirados. “Fungou no cangote /Da linda morena”. Aqui, Obama cutuca a administração Bush representada na figura de Condoleezza Rice. “Te catá, te catá, te catá/ Loirinha com a fungada do negão /É um problema”. Bom, tem alguma outra loirinha disputando a presidência dos EUA? E como se isso não fosse o bastante, a canção espezinha a condição de mulher traída de Hillary e seu compromisso com o status quo do Big Business americano: “Se ninguém soube lhe amar /Pode se preparar chegou a salvação / Só alegria, pode se arrumar /Que chegou o negão /Mas se é compromissada /É melhor não vacilar/ Basta um sorriso um olhar /Para o negão te catar.” Pra explicar uma música daquelas, só uma teoria dessas. 15.02.2008 às 11:13 - tevê
Coffee Break #1
Esse é o primeiro "Coffee Break", o quadro de dicas de cultura que eu tinha no "Jornal Ideal", do Canal Ideal, desde 04 de outubro de 2007. Saí porque não pude conciliá-lo com minhas atribuições na “Monet”, mas foi um período muito legal, de aprender a escrever para televisão e de me comportar em frente às câmeras. Fui melhorando com passar do tempo, fique tranqüilo. Minha idéia era postar um por semana, mas, como acabei fazendo só 22 programas, acho que vou abrir mais tempo entre um e outro.
14.02.2008 às 0:44 - arquivos
Nosso amigo, nosso backstreet boy
Uma das melhores coisas em ter trabalhado mais de cinco anos no Zap! (o suplemento jovem semanal do Estadão) foi conhecer lugares e pessoas que eu jamais cogitei conhecer. E, por outro lado, falar coisas para o público teen que raramente ele costuma ouvir. Quando os Backstreet Boys estavam pelo mundo dando entrevistas de divulgação, Howie D. veio a São Paulo e eu fui entrevista-lo. O texto, publicado em junho de 1998, fugia totalmente do tom apaixonado que fãs (e jornalistas) costumavam usar em situações como aquela. Fiz o texto coalhado de pequenas ironias, mas tratava o garoto com o maior respeito – até porque achei o cara bem gente boa mesmo. Não era um pilantra camuflado de artista, era um profissional do entretenimento. Como está lá no texto: normal.
![]() Onde está Howie D, o backstreet boy fã de Jon Secada, cuja cor predileta é púrpura e que pensava em ser oficial de polícia na infância? Ah, lá está ele, sentado ao lado da piscina de uma cobertura paulistana, rodeado por tantos fotógrafos e equipamentos que mal se pode vê-lo. Sua passagem promocional pelo país está sendo bastante concorrida, já que o grupo de que faz parte há oito anos, o Backstreet Boys, transformou-se em um grande sucesso no Brasil a partir da inclusão da faixa “As Long As You Love Me” na novela Por Amor, da TV Globo. As fãs aglomeradas na porta do hotel adoram os “garotos da rua de trás”, os roqueiros honestos os chamam de “Spice Girls de calças” ou “novos New Kids”, mas a verdade é que Howie é infinitamente mais articulado que a maior parte dos artistas populares brasileiros. Diz que está surpreso com São Paulo, que nunca imaginou uma cidade tão grande e desenvolvida em um país como o Brasil. “Conheci um pouco da música pop local também”, ele conta. “Fernanda Abreu e Gabriel O Pensador são muito legais.” Ele está se enturmando, realmente – mas qual haveria sido sua primeira impressão do País? “Ah, foi muito positiva: todas aquelas fãs me esperando no aeroporto”, conta - num tom que não permite supor se está falando sério ou não. Durante a entrevista, ninguém usou os termos “armação” ou “banda pré-fabricada” para se referir ao grupo. Claro, não faz muita diferença neste mundo mundano, já que muitos grupos de proveta entraram na história fazendo ótima música - Monkees, Sweet, Herman’s Hermits, Ronettes. Mas também porque eles contam uma história jeitosa sobre como o grupo começou, nos tempos de colégio. “Estudávamos eu, Nick e AJ em Orlando, na Flórida, e formamos um trio vocal, inspirado em bandas como Color Me Badd e Boyz II Men, para nos apresentarmos em festas, programas locais e coisas do tipo”, conta Howie. “Quando decidimos ampliar a formação, em 1994, chamamos Kevin e seu primo, Brian, e aí a banda virou um negócio realmente sério.” O primeiro single do grupo pela gravadora Jive Records foi Quit Playing Games (With My Heart), produzido pelo "time" sueco The Pop!, que também cuida do Ace of Base. “Acho que tivemos muita sorte de trabalharmos com um europeu, que ressaltou muitos pontos em nossa música que nós próprios não notávamos”, admite. “Creio que essa é nossa grande diferença, a combinação dos grupos vocais americanos com os beats e a música pop dançante da Europa.” O grupo já vendeu mais de 20 milhões de discos em todo o mundo e seu sucesso aumenta velozmente em países da América Latina. O que é bastante curioso, visto que a música do BSB segue uma tradição americana forte, a dos grupos vocais descendentes do doo-wop. “Temos uma boa produção, um som agradável, boas canções, um ritmo legal, acho que isso é o que as pessoas gostam, em qualquer parte do mundo.” História - Na verdade, o Backstreet Boys vem empacotado como um grupo vocal (na linhagem dos Temptations, Jackson 5), mas são mesmo um fenômeno adolescente cuja linhagem começa com os Monkees, inventados por um canal de TV americano para ocupar o filão teen abandonado pelos Beatles e Beach Boys, que rumavam em direção ao psicodelismo. Depois, nos anos 70, vieram bandas como os glitter-fofos do Bay City Rollers ou a Patridge Family (a Família Dó-Ré-Mi, no Brasil). E, de lá para os Menudos e New Kids on The Block, nada mudou. Não há muito o que temer, os BSB são um fenômeno da música pop assim como os tornados ou os relâmpagos são um fenômeno metereológico. Normal. Os papéis são demarcados claramente. Se os New Kids tinham o Donnie, que gostava de rap malvado, falava palavrões e destruía hotéis, o Take That tinha Robbie Williams, que se envolveu com drogas pesadas, engordou e foi enxotado da banda. Os Backstreet Boys também funcionam assim. Nick é o “gatinho fofinho”, tem 18 anos e é loiro feito um Hanson. Brian é o feinho e responsável. Kevin é o mais musculoso e bem vestido. Howie é o robbie rosa de plantão, bronzeado e com um shape meio latino, cabendo para AJ o papel de rebelde. Mas não muito: ao contrário do outro fenômeno jovem do momento, as Spice Girls, os BSB são assexuados como manda a tradição americana, amam suas famílias e o sonho de Brian é levar seus pais para passar férias no Havaí. Ao vivo – “Começamos a compor alguma coisa para nosso próximo disco”, conta Howie. “Naturalmente, as músicas serão mais pessoais, falando de coisas que nos interessam e usando sonoridades que nós assimilamos”, revela. “Temos uma mente bastante aberta e viajamos muito, adoramos conhecer as culturas locais e acho que pode ser uma boa idéia usar essas experiências no nosso som, como fez Michael Jackson em ‘They Don’t Care About Us’.” Howie promete para breve uma nova visita ao Brasil, desta vez para shows ao vivo. “Começaremos a turnê de Backstreet’s Back (o segundo disco da banda) no final do ano e certamente passaremos por aqui”, promete. “O público é muito legal e tenho certeza que os outros caras da banda vão gostar demais do Brasil.” É isso aí, Howie, então a gente se vê no ano que vem, caso o fenômeno Backstreet Boys já não tenha passado, como aconteceu com todos os predecessores no gênero. 14.02.2008 às 0:07 - novo post
PT Saudações
Olá! Este é o primeiro post do Causa Própria. Contra todas as previsões, incluindo as minhas próprias, acabei montando um site, que funciona como um blog (o Flávio Rosselli, que armou toda a parte tecnológica, me jurou que um blog é só uma ferramenta de publicação, não era um querido-diário ou coisa do tipo. Eu acreditei). Devo admitir que a criação desse espaço é triplamente devida ao fim da "Bizz", em agosto último. Porque a “Bizz”, você sabe, foi a revista que me levou a embarcar nessa história de jornalismo. Ter dirigido a revista por quase dois anos, e ter participado do projeto que a ressuscitou, ainda que brevemente, colocou um ponto e vírgula (ou um pt e vg, pra ficar no tom do título) na minha carreira. Caramba, havia chegado onde meus sonhos mais delirantes me levavam quando eu tinha 18 anos. Depois, porque o fim da revista, e tudo o que aconteceu com ela sob minha direção, me deixou um tanto farto dessa história de “crítico de música” e “jornalismo musical”. Queria fazer outras coisas – falar de filmes e livros, viajar com o Caco Barcellos, escrever para revistas infantis, entrevistar artistas plásticos da Califórnia, aprender a escrever para televisão, bolar um programa de rádio... sei lá. Queria experimentar veículos diferentes, em plataformas diferentes. Daí que eu pensei que um site seria uma boa forma de juntar o que eu estivesse produzindo por aí. Por último, quando acontece um pt e vg na nossa vida, a gente pára e dá uma avaliada em tudo o que aconteceu. Nos livros que escreveu, na filha que fez, na árvore que (ainda não) plantou. E reparei que em 2008 faz exatamente 15 anos que eu escrevi meu primeiro texto em um veículo profissional. E isso, para quem vem de família proletária como eu, representa exatamente a metade do que a gente entendia como “carreira” (eu sei que não é mais assim, mas isso é só para efeito de viagem sentimental). Eu precisava celebrar de alguma forma, então bolei o Causa Própria, onde, entre outras coisas, pretendo arquivar as coisas que fiz e que for fazendo. (Ilustrando esse post, uma dessas coisas que vão saindo do armário e parando na internet: uma foto feita pelo grande Penna Prearo em maio de 1996 no Pontal do Paranapanema, onde eu fui pra fazer uma reportagem sobre a vida dos adolescentes nos acampamentos dos sem-terra). O negócio é que, por mais que o PAS e o Matias me instigassem a manter um blog, sempre fiquei desconfiado com o que me parecia uma celebração do ego. Depois fui entendendo melhor a mecânica desse universo internético – mas confesso que o título “Causa Própria” surgiu pra que eu me defendesse do que eu mesmo poderia me atacar. O fato é que a causa é própria, mas o sentimento é que em volta dela possamos conviver bastante e trocar muita idéia. Comente, volte sempre, divirta-se. ![]() |